Entretanto, os meus pais mudaram de casa, os acidentes da vida levaram-me para outras terras e outros convívios e, durante longos tempos, não voltei a conversar com Ti Duarte e Ti Gracinda.
Foi no ano em que o meu filho nasceu, nas férias de Verão passadas em casa de meus pais, que um mero acaso me levou a visitar o velho das histórias de fadas, bruxas e feitiços das noites de sortilégio da minha juventude.
Era então eu a mãe mais babada do mundo, derramada de felicidade e orgulhosa das menores gracinhas do meu rebento, e tão cheia de esmerados desvelos e cuidados como só uma mãe recente e ainda com pouca experiência o pode ser. Por isso, na tarde soalheira em que visitei Ti Duarte, carregava o meu filho num braço e, no outro, um saco preparado para qualquer urgência e necessidade: fraldas descartáveis, algodão e óleo de limpeza, um biberão com água fervida e alguns utensílios e ingredientes necessários para o lanche do bebé.
Mal estacionei o carro, reconheci Ti Gracinda. Vinha do poço, pelo carreiro por mim tantas vezes percorrido na meninice. Mais curvada, mais baixa, usava o eterno lenço escuro na cabeça e trazia agora, apesar do calor, um xaile de lã traçado no peito. Entre as mãos, apertada pelo bojo, carregava com cuidado uma bilha pequena de barro.
«Fui buscar uma infusinha de água ao poço. A da torneira não me dá satisfação», confidenciou, de olhos húmidos, depois do primeiro espanto de me voltar a ver.
Quanto a Ti Duarte, adiantava ela, também ia «menos mal para a idade. Um ouvido e uns olhos que parecem de moço, benza-o Deus. De pernas é que já anda um pouco peado.»
A voz de Ti Gracinda tremia, comovida: «A alegria que ele não vai ter, menina, de a voltar a ver.»
A cozinha era a mesma. Talvez um pouco mais vazia, mais escura, apesar do candeeiro eléctrico - chapeuzinho metálico na ponta de um fio branco que escorria do tecto - que substituíra o antigo “petromax”. Apesar da televisão moderna, a cores, e que eu só descobri, numa prateleira pequena suspensa da parede, já a conversa e o desenrolar das novidades ia alto.
«Pois é, menina, já casada e com um filho nos braços!...» Uma névoa de saudade sombreava os olhos ainda vivos do velho: «Parece que foi ontem que a menina cá vinha comprar leite mais o seu mano e a sua mãe...»
E eu partilhei a saudade: «As histórias que então me contava!... Parecia que o mundo se desfazia em bruxas e bruxarias. E o Ti Duarte sempre a jurar-me que aquilo era tudo verdade, verdadinha. E olhe que eu dizia que não acreditava mas, lá no fundo, ficava cheia de medo. Apesar de me estar sempre a repetir que bruxas eram coisas dos tempos antigos, que tinham desaparecido, quando eu abalava daqui da sua casa ia todo o caminho enroscada no braço da minha mãe e nem levantava os olhos para os lados, não fosse avistar ainda a sombra de alguma bruxa por aí perdida. O Ti Duarte enchia-me de medo com as patranhas que me pregava.»
«Ora menina, o que eu gostava era de a ouvir, a si e ao seu mano. Mas que eu fui criado nuns tempos muito maus, que passei muita fome e necessidades, lá isso é verdade. Por isso não era de admirar que visse bruxas em todas as curvas do caminho, fraquinho e moídinho de trabalho como andava. Mas a menina Anita já cresceu com outras farturas e outros cuidados. Por isso é que eu lhe dizia que, no seu tempo, já não havia dessas coisas. E agora, então, tem aí um menino lindo e criado com tanto mimo e fartura que dá gosto ver.»
Escurecera sem darmos por isso, animados pela conversa. Pela porta larga da cozinha, aberta de par em par, entrava a sombra morna do fim de tarde e o canto, ainda tímido e abafado, dos primeiros ralos e grilos a acordarem a noite.
Ti Gracinda carregou no interruptor e, do chapeuzinho redondo do candeeiro, derramou-se uma cascata de luz que inundou a cozinha.
E foi então, nesse preciso momento, que o rosto do velho contador de histórias se fechou - nuvem escura que ensombra o sol - absorto, silencioso, afundado num qualquer pensamento íntimo ou, quem sabe, nalguma longínqua recordação.
Quando levantou a cabeça, fixou em mim uns olhos velados de tristeza e disse, devagar, pausando as palavras:
«Sabe, menina, qual era, afinal, a grande mentira que, nesse tempo, eu lhe contava? Era que as bruxas eram coisas do passado. Infelizmente, ainda as há e das negras.»
Fiquei-me a olhar para ele, a tentar entender-lhe o pensamento.
«Pois é, menina, eu sei ler pouco. Mas ouço, aprendo... Já vivi muito e sinto as coisas dentro de mim. E agora, com o rádio e a televisão, a gente fica a saber coisas que se passam por esse mundo fora. Já não conhece só o nosso canto. Olhe, as vezes eu até me arrepio. Quando vejo essas criancinhas em pele e osso, nesses países mirrados pela fome, todas mais mortas que vivas, agarradas à teta ressequida das mães, que mais parecem esqueletos em pé, com moscas a passearem-lhe na cara... E quando sei que se deitam para as estrumeiras carregamentos inteiros de frutas, que se mandam queimar searas imensas só por causa dos preços dos produtos nos mercados, da ganância de uns quantos para terem lucros muito grandes... E se compram tantas armas e se fazem tantas guerras quando, com o preço de uma dessas bombas de matar gente, se alimentava uma vila inteira... Diga lá, menina, acha que as bruxas já acabaram? Continuam a existir, não vivem é junto aos poços nem nas encruzilhadas. Vivem na cabeça e no coração dos homens.»
Ti Duarte enxugou com as costas da mão os olhos húmidos. «O que sobra e se desperdiça num lado é o que faz falta no outro. E a culpa é dos homens e das suas políticas. Por mais desculpas e falsas explicações que inventem, a verdade é que a Terra é mãe e tem o suficiente para todos os seus filhos. Mas a Terra é como uma grande casa que tem de ser bem governada. E os homens governam mal a Terra, algumas vezes por ignorância mas a maior parte porque não se importam uns com os outros. Por egoísmo. Por quererem tudo para eles. Pelo feitiço da ganância que lhes tapa os ouvidos, fecha os olhos e cerra os corações.»
Os olhos do velho tinham agora o brilho dos iluminados:
«Acredite, menina, as bruxas são o egoísmo que vive no coração dos homens. E está nas mãos dos homens acabar de vez com elas e fazer da Terra um local sem feitiços onde dê gosto viver. Para todos, não só para uns quantos.»
Despedimo-nos. De pé, no umbral da porta da cozinha, Ti Duarte ficou longamente a acenar com a mão emagrecida. O canto dos grilos e ralos era agora uma orquestra grande, poderosa e afinada. Apertei o meu filho nos braços e as palavras do velho cresceram na noite calma, sob o negro céu flamejante de estrelas: «Está nas mãos dos homens fazer da Terra um sítio bonito para se viver. Para todos os seus filhos!»
F I M
anamar - 1989
Este conto faz parte de uma colectânea premiada com uma Menção Honrosa na IV edição (2002) do Prémio Nacional de Conto Manuel da Fonseca, promovido pela Câmara Municipal de Santiago do Cacém.
Mas, histórias de partir a respiração, eram as das bruxas e fadas, mais as dos espíritos e almas penadas e também as das palavras más.
«Sim, más palavras, o que é que cuidam, são piores que os micróbios das doenças modernas. Piores, bem piores, que para as doenças ainda ele se vão achando remédios, para as palavras más, muitas vezes, nem o arrependimento lava o mal».
E Ti Duarte dava exemplos:
«Olhe o Zé Coxo, Deus Nosso Senhor me perdoe, mas o pai dele, o Alforreca, era cá uma má língua!... Não havia mulher honrada na boca dele, não havia gente honesta, no dizer dele era tudo ladrões e vadios. E ainda se fossem só palavras... Toda a gente se lembra que ele desgraçou uma rapariguinha. A pobre, que não tinha mais que quinze ou dezasseis anos, ia todos os dias levar o almoço ao pai, que andava a trabalhar no campo. Um dia, o Alforreca, que já nesse tempo era homem casado, espreitou a miúda, meteu-se com ela, não só a desgraçou como mulher como lhe deixou uma perna toda roxa, que a miúda quase que nem se cura, andou com a perna inchada tempos sem fim, até se falava que ia ficar coxa. Afinal, olhe, pouco depois nasce o filho do Alforreca, o único que tem, e veja-se aquela miséria que até mete dó, Deus me perdoe, todo coxo e aparvalhado que é uma desgraça. Foi castigo, pode crer, elas cá se fazem cá se pagam, as vezes demoram mas pagam-se, pode ter a certeza.»
Ti Gracinda, reparando nos meus estremecimentos amedrontados, ralhava: «Ó homem, cala-te lá para aí com essas coisas que assustas as crianças.»
Mas o marido não lhe dava troco: «Isto são coisas da vida, o que é que pensam, as pessoas é que não acreditam. Se acreditassem que os maus pensamentos e as más palavras e o desejar e fazer mal aos outros, a nós mesmos é que nos vem parar, de uma forma ou outra, havia menos invejas e menos maldade no mundo, as pessoas eram melhores umas para as outras.»
Ficava-se um bocado a abanar a cabeça e depois acrescentava: «Eu percebo que as pessoas modernas não creiam nestas coisas, são coisas que parecem doutros tempos. Olhe, eu, por exemplo, também me custa a acreditar que os homens tenham ido à Lua...»
Cismava em voz alta: «Uma coisa tão pequenina, lá tão no alto, mas como é possível que tenham lá poisado homens? Ainda por cima, a Lua nunca é a mesma, está sempre a mudar de feitio e de tamanho...»
O meu irmão parava de brincar com o gato e desfazia-se em risos: «Ó ti Duarte, mas a lua é muito grande, parece pequena porque está muito longe.»
E explicava, com paciência trocista: «Está a ver aqui esta abóbora? A abóbora é o sol, que está parado, tal qual esta abóbora. À volta do sol anda a terra a girar e à volta da terra anda a lua.»
Para a explicação ser mais eficaz, ia buscar uma laranja e procurava outro fruto mais pequeno, uma ameixa ou uma amêndoa, por exemplo. Eu ajudava no exercício, segurando a laranja numa mão; o meu irmão segurava a ameixa na outra:
«A terra é aqui esta laranja que anda à volta do sol, a abóbora. E à volta da terra, isto é, da laranja, anda a lua, que é a ameixa. E tanto a terra como a lua giram, ao mesmo tempo, à volta delas mesmas». E ambos girávamos os frutos entre os dedos, com alguma inabilidade mas muito saber.
«Está a ver, Ti Duarte, se espreitar assim, nem se vê bem a ameixa toda, a laranja tapa a luz que vem daqui. O mesmo se passa com a lua, por isso é que acontecem as fases da lua.»
Ti Duarte coçava a cabeça e mal disfarçava espantos:
«Que meninos estes, tão novitos e a saberem tão bem estas coisas. Valha-os Deus!». Ficava uns segundos pensativos, a cabeça baixa. Mas logo acrescentava, num repelão:
«Mas eu, mesmo assim, não estou convencido, não me entra cá na cachimónia essa de homens poisados na lua.»
Ríamos os dois, eu e o meu irmão, divertidos, perdidos de gargalhadas.
Mas, do que eu gostava mesmo, era das histórias de bruxas e fadas. E insistia: «Conte lá, Ti Duarte».
«Ora», dizia ele, a encolher os ombros, «Isso, agora já não há. Já não há bruxas nem fadas. Antigamente é que havia muitas.»
Mas, talvez para me agradar e desvanecer as más impressões dos agouros e más palavras, ou talvez porque conversa era com ele, Ti Duarte lá acabava por ceder:
«Olhe, aqui mesmo ao pé da minha casa, vi eu montes delas. Ali antes de chegar ao poço, onde está a alfarrobeira grande, havia um ninho de fadas que nem queira saber. Quantas vezes não ia eu a passar por lá, quase a chegar, e elas, sentindo-me os passos, pfff, veeee, escapuliam-se no ar, a voar. Só lhes via a luz, o rasto delas no ar.»
«E bruxas, também viu algumas?»
«Oh, menina, o que eu mais vi na minha vida foram bruxas...» Mordia o cigarro com mais força e repetia: «Bruxas, quantas bruxas não houve na minha vida!... Olhe, quando eu era jovem, assim mais ou menos como você e o seu mano, e até mesmo mais novito, morava eu já então nesta casa, que era dos meus pais. Éramos uma família grande, filhos teve a minha mãe onze, todos assim uns a seguir aos outros.»
Fazia com a mão o gesto das alturas descendentes e continuava: «Os dois mais velhos foram raparigas, depois nasci eu, a seguir o meu irmão Alberto, mais umas quantas raparigas e depois é que vieram mais rapazes. Pois foi por isso, por eu ser o rapaz mais velho, é que tive de ir cedo para a lida do mar com o meu pai, que era pescador, Deus o tenha em paz.»
A senhora Gracinda descansava a cabeça na palma da mão e escutava as histórias do marido com um sorriso tão redondo e brando como o rosto emoldurado pelo lenço escuro. De vez em quando, com a tenaz comprida, vigiava o borralho no fogareiro, onde duas batatas doces assavam lentamente. A minha mãe cruzava os braços sobre o peito, recostava-se nas costas da cadeira de palha e logo o gato, a escapulir-se às diabruras do meu irmão, lhe saltava para o colo. Bichaninho, bichaninho, bichaninho... O gato enrolava-se e voltava a enrolar-se até se afundar, ronronante, no aconchego do colo.
«Pois era nas noites de inverno, quando eu tinha de me levantar lá para as três ou quatro da manhã, para ir à pesca com o meu pai, que eu encontrava muitas bruxas por aí. Bruxas e labesomes.»
«Bruxas e quê?»
«Labesomes, menina, homens que se transformam em lobo nas noites de lua e andam por aí a cumprir o fado, a penar.»
«Ah, lobisomens...», corrigia eu a pronúncia.
«Pois, eu cá não sei falar assim bem como a menina e o seu mano falam. No meu tempo, só as pessoas muito ricas é que tinham estudos. Mesmo a escola primária não era uma coisa que as pessoas fossem obrigadas, não era como agora, que todas as crianças têm de ir. Mas olhe que eu ainda cheguei a ir à escola, sabe?... Ainda fui uma meia dúzia de dias. Mas tão cansadinho de andar na lida com o meu pai que mal chegava à escola, mal me acomodava lá na carteira, pumba. Adormecia cá de um jeito que ninguém me conseguia pôr em pé. Até a professora me disse que o melhor era ir para casa dormir e só voltar à escola quando conseguisse estar de olhos abertos. Nunca mais lá pus os pés.»
Ti Duarte levava aos lábios rugosos, com as pontas dos dedos, o resto mole e meio apagado do cigarro e aspirava umas quantas vezes, com força, até um clarão desmaiado luzir na ponta do cigarro.
«Pois, foi assim... Ui, nesse tempo é que as noites de inverno eram frias!... Nem queira saber, era de partir os ossos. Eu levantava-me mais o meu pai, calçávamos as botas e eu punha uma saca de sarrapilheira, dessas de guardar batatas, aberta ao meio, pela cabeça. Bebíamos um copo de aguardente cada um e lá abalávamos.»
«Credo!», afligia-me eu, «Não me diga que era tão novito e já bebia assim aguardente?»
«Mas é que tinha de ser. Se não bebesse a aguardente não aguentava o frio. Gelava-se-me o corpo. Por isso é que tinha de beber. E, vá lá, o pior é que muitas vezes nem para comprar a aguardente ele havia...»
«Então, mas nem sequer comia qualquer coisa?»
«Pois claro que não, já tinha comido ao jantar. Ia agora comer a meio da noite?!... Estava mal era quando não havia mesmo nada para comer. Ai, tantas vezes que o meu jantar foi uma sardinha em cima de uma cortiça...»
«De uma cortiça?...»
«Pois, quando se acabava o pão. Tínhamos de pôr o peixe em cima de qualquer coisa, não era? Púnhamos em cima da cortiça. Sabe lá o que a vida era noutros tempos!... De Verão ainda a coisa escapava, ía-se ao mar e havia trabalho nos campos. Agora de Inverno, havia épocas em que chovia e fazia vendavais semanas a fio. Ao mar não se podia ir, em terra acabava-se o trabalho e em casa das pessoas acabava-se o comer. E havia a guerra. A Grande Guerra, onde morreu um mar de gente e que destruiu meio mundo à volta. Felizmente para nós, a guerra não era cá, mas mesmo assim chegavam-lhe cá os ventos, havia uma escassez de coisas que nem queira saber, farinha para o pão, arroz, carne, sabão, coisas assim. Só quem tinha muito dinheiro é que lá ia arranjando alguma coisa, porque era tudo muito bem pago e arranjado assim por baixo da porta, à socapa, está a ver?»
Meneava a mão em concha, a sublinhar com o gesto a explicação, e os olhitos muito vivos piscavam: «Pois era, e então em casas com muitos filhos, nem queira saber, aquilo era uma fominha de partir as entranhas do estômago. Ai, tantas vezes que, na casa dos meus pais, se teve de repartir por todos o que havia e só dava uma sardinha a cada um. Uma sardinha em cima de uma cortiça...»
Eu ficava a ouvi-lo, os olhos muito abertos, enormes, fixos de pasmo, sem mesmo pestanejar.
«Coisas que já lá vão...», continuava o velho que, quando engrenava, tinha para todo o serão. «Mas olhe, quer saber, era nessas noites que eu costumava encontrar-me com as bruxas. Era quase sempre em noites muito escuras e feias, com vento ou com chuva. Eu saía de casa com a saca pela cabeça, a tiritar de frio, pois a aguardente aquecia um pouco o estômago mas não tinha força para chegar à ponta dos pés e das mãos, que iam geladinhos. E eu cheio de medo. Medo dos vendavais, medo do mar, medo de não se apanhar peixe, medo da fome. Era uma criança, por isso não é de estranhar. Pois, as bruxas andavam por aí, pois é de noite, no escuro, pela calada, que elas gostam de sair para fazerem lá as patifarias delas. E não foi uma, nem duas, mas muitas as vezes que elas passaram por mim...»
«Ora, Ti Duarte, eu não acredito nisso», dizia-lhe, incrédula.
«Tão certo como estarmos aqui nesta cozinha!»
«E as bruxas, o que é que lhe faziam? Faziam-lhe mal?»
«Pois, o que é que pensa a menina que são as bruxas? São pessoas más e invejosas, que querem tudo para elas, e que, por isso, fazem feitiços e maldades ao próximo.»
«Mas, conte lá, Ti Duarte, que feitiços lhe faziam?», insistia eu, curiosa.
Ti Duarte coçava os cabelos ralos e embranquecidos e abanava os ombros magros: «Oh menina, então se eu já lhe contei tudo o que penei na vida, os frios, as fomes, os sonos mal dormidos, os trabalhos pesados, pois que mais feitiços quer que eu lhe conte?»
Ti Gracinda arredondava ainda mais o sorriso, dava volta às batatas doces no borralho e alegrava-se: «Estão quase assadinhas».
Mas nunca o serão terminava sem Ti Duarte me apaziguar: «Não vá para casa com medo, menina. Olhe que, agora, já não há destas coisas. Já não há bruxas.»
E oferecia-me, a mim e a meu irmão, as batatas doces, quentinhas, que a senhora Gracinda tirava do borralho com a tenaz comprida e embrulhava em duas voltas de papel pardo.
(continua)
anamar - 1989
NOITES DE SORTILÉGIO
Naquela época, a minha mãe ia todos os dias comprar leite, de leiteira de alumínio na mão, a casa do Ti Duarte, que morava a dez minutos, indo pela estrada, ou a cinco, pelo carreiro do poço, para encurtar caminho.
Íamos à noitinha, a seguir ao jantar e à mesa levantada mas antes do arrumar da cozinha, para que a minha mãe, ao lavar a loiça, pudesse ter já o leite a ferver e a leiteira vazia para a lavagem. E digo íamos porque ela insistia sempre para que tanto eu como o meu irmão a acompanhássemos e, geralmente, nenhum de nós, por hábito e por gosto, se fazia rogado.
Tinha eu então a indefinida idade que paira estranhamente entre a infância, que se foi de vez, e a adolescência que vai chegando, e estudava no Liceu, na cidade, para onde ia todos os dias, em viagem de ida e regresso de comboio que durava perto de uma hora. O meu irmão, três anos mais novo, estava à beira de acabar a escola primária obrigatória que fechava, nesse tempo, com o exame da quarta classe.
Ti Duarte era, como ele mesmo dizia, um pouco de muitas coisas: pescador, quando o mar andava calmo, que o barco e o dono estavam velhos e já nem um nem outro aguentavam vendavais; agricultor de uma “cerca” de terra que não tinha mais que umas vinte árvores e uma dúzia de regos para as batatas, as cebolas, os alhos, as couves e “uns canteirinhos para as novidades”. Consistiam estas últimas, se me não falha a memória e o meu pouco conhecimento desses saberes, na ervilha, fava, feijão verde e tomate. Dizia ele que também era “criador de gado”, divertida hipérbole para quem tinha vinte ou trinta bicos apertados na capoeira, entre galinhas, galos e pintos, uns quantos porcos na pocilga, meia dúzia de ovelhas meigas presas a uma corda com estaca, dois ou três bezerros mugindo no estábulo estreito e - ex-libris de Ti Duarte - uma única vaca leiteira, criada a mimos e rações duplas. Por isso, o leite que nos vendia tinha de natas a espessura de dois dedos, e tão espessas e amarelas que, com três litros, se fazia uma colher cheia de manteiga.
Mas Ti Duarte era, acima de tudo, um conversador e contador de histórias sem fronteira entre o passado e o presente, o real e o imaginado.
«Ó menina Anita», começava ele de mansinho, «uma vez trabalhava eu a desbastar uns silvados na Quinta do Alto, que a sua mãe bem conhece. Naquele tempo a Quinta do Alto não era o que é hoje, ainda estava toda em bravo, silvas e ervas que chegavam à cabeça de um homem... Oh se chegavam, havia lá ervas tão cerradas e tão altas que um homem se escondia lá por baixo e deixava de ver a luz do sol. Aquilo era de se perder a respiração!...»
Eu puxava um banquinho de madeira para junto da mesa comprida, de toalha de xadrez polvilhada ainda de migalhas de pão do jantar, e fazia roda, mais a minha mãe, com Ti Duarte e a mulher, a senhora Gracinda, enquanto o meu irmão se entretinha a brincar com o gato cinzento de guizo sonoro ao pescoço. Por cima da mesa pendia o “petromax”, um candeeiro enorme, a petróleo, preso a uma corrente vinda lá do alto, do telhado, e que Ti Gracinda espevitava de vez em quando, para alumiar mais. O círculo de luz do candeeiro envolvia-nos, brilhante ao centro e desmaiando-se cada vez mais, ao longo das paredes da cozinha, até morrer em enormes aranhas rastejantes de sombra.
«Pois estava eu aí a trabalhar nessas silvas, a desbastá-las, quando encontramos uma cobra como na vida não vi outra», continuava Ti Duarte, a moer o cigarro mole entre os lábios. «Olhe que a sua mãe talvez ainda se lembre de ouvir falar neste caso, vão talvez para cerca de uns trinta anos, a cobra gigante da Quinta do Alto.»
Olhava interrogativamente para a minha mãe, que procurava na memória recordações distantes, olhava para a mulher, entretida em espevitar as brasas do fogareiro com a tenaz comprida. Ti Gracinda meneava afirmativamente a cabeça, arredondada pelo lenço escuro, ria e atiçava mais o lume, o de carvão e o da conversa:
«Ora, se me lembro...»
Ti Duarte endireitava e enchia o peito magro com uma inspiradela forte de ar, abria os braços quanto podia, olhava para um e outro canto e sentenciava:
«Era um bicho capaz de engolir uma pessoa! Tinha a grossura da cinta de um homem e tão comprido que era capaz de dar a volta a esta cozinha.»
Eu arregalava os olhos para a direita, para o escaparate de parede onde sobressaíam as sombras redondas dos pratos e as projecções cilíndricas das canecas penduradas pelas asas, em filas certinhas. Remirava o poial onde Ti Gracinda arrumava as bilhas de barro da água e a vasilha do leite, coberta com um pano branco. Olhava depois para a esquerda e crescia o susto no meu peito à vista do emaranhado das redes de pesca e outros utensílios para o mesmo uso, aconchegados daquele lado, a um canto.
«Pois fique a saber, menina Anita, que foi preciso uma carroça puxada a duas bestas para levar a cobra e, mesmo assim, não cabia: a cabeça ia a pender à frente e o rabo a arrastar atrás.»
(continua)
anamar - 1989
Provavelmente, tudo não tinha passado de uma miragem deslumbrante mas, ainda assim, miragem, no deserto da vida dela. Depois daquele almoço, e apesar de Zé Costa se ter despedido com até breves, daqui por dias volto para trazer à prima os papéis para as termas, o certo é que nunca mais tinha dado sinal de vida.
Nos dias que se seguiram, Antónia andou num alvoroço, sempre à espera do toque do telefone ou da campainha da porta. Vestia-se logo de manhã, experimentava um vestido e depois outro, a ver qual lhe ficava melhor, punha um pouco de baton nos lábios e rouge nas faces, para estar bonita se ele aparecesse. E até a tarde que passou no cabeleireiro, para pintar o cabelo, foi um desassossego, sempre a pensar que o primo batia à porta e ela não estava para o atender.
Quem se desfez em espantos de a ver assim bem disposta, com saúde e alegria, foi a empregada: «Como está diferente e muito melhor, D. Antónia! Como gosto de a ver assim e cheia de vida, D. Antónia! Parece um milagre, D. Antónia!». E ela sorria apenas, imaginando o espanto maior que a empregada teria no dia em que descobrisse a existência do primo e lhe comunicasse o próximo casamento.
Casamento?!... Derradeiro sonho antes do sono eterno da morte, um último clarão antes da escuridão definitiva. Afinal, os dias tinham morrido, uns a seguir aos outros, e as semanas caíram, uma a uma, no calendário. De Zé Costa, nada. Nem notícias nem lembranças, como se costuma dizer. D. Antónia puxou o lenço e assoou com ruído as lágrimas que já nem sabiam o caminho dos olhos e teimavam em pingar das narinas. Doíam-lhe os braços, as pernas, as costas, estalava-lhe a cabeça. Ainda por cima não tinha conseguido consulta no médico dos ossos, tinha sido aquela chatice do telefone, sempre impedido. Depois, quando conseguiu ligação, o médico já não estava, tinha ido para um congresso no estrangeiro. Pois era, se a nora tivesse tido a delicadeza de passar pelo consultório - que até lhe ficava em caminho para a loja - ela não tinha ficado sem consulta e não estava agora tão cheia de dores... Parva era ela que ainda alimentava aquelas ideias de amizade com a nora. Tola! Até tinha pensado em oferecer-lhe a jóia antiga, aquela das pedras vermelhas. Era o que faltava, dar-lhe uma coisa daquelas, de tanto valor e estimação.
E a filha? Era filha, é verdade, sempre tinha tendência a desculpá-la, mas não podia fechar por completo os olhos. Se ela fosse uma boa filha, tinha vindo vê-la quando lhe telefonou a dizer que estava com uma daquelas crises de reumático de nem se poder mexer. Mas a filha mal a tinha escutado, quase que nem a deixou falar, que tinha o mais pequeno na banheira e o refogado ao lume, via-se mesmo que estava a despachar a mãe ao telefone. Ah, a sorte é que ela já os conhecia a todos de ginjeira, eram uns egoístas. Mas ela nunca mais os iria incomodar, decidira que já não precisava de mais ninguém. Daí para a frente, deixar-se-ia ficar em casa, sozinha, e morreria mirrada em dores e em comprimidos. Deus dar-lhe-ia uma morte breve, era a única coisa que agora desejava na vida: Morrer, morrer, estava decidido!
Mas a lembrança da tarde soalheira no terreno de Zé Costa, a casa com varanda virada ao mar, o murmúrio calmo das ondas, a voz do primo, forte e abrigante como um porto, teimavam em insinuar-se nos pensamentos de D. Antónia como uma maré que cresce e abriam-lhe brechas na fúnebre determinação. E se lhe tivesse acontecido alguma coisa a ele? Pois, afinal, não era estranho ele nunca mais ter dado palavra? Mas, que lhe podia ter acontecido? Só se fosse um acidente e ele estivesse nalgum hospital?!... E Antónia, ao invés de estremecer com esta ideia sinistra, mau grado, sentiu-se alegrar. E imaginou-se, carinhosa enfermeira, ao lado do primo, a mão dela na mão dele, e ele a contar-lhe como se sentira triste no meio de todas as tristezas do hospital, por imaginar a preocupação dela com a ausência de notícias dele. Oh, se assim fosse... Agora que experimentara aquele gosto renovado da vida após o reencontro com Zé Costa, morrer não era opção fácil. E ela ali estava, presa nas suas interrogações, às voltas com o dilema a que tudo se resumira: Viver ou morrer, eis a questão!
O telefone tocou e D. Antónia nem se mexeu. Deixou-se ficar a ouvir o trim compassado e repetido, as lágrimas secas, o pensamento no vácuo. O telefone calou-se. Depois voltou a tocar, insistente. Afastou o xaile que lhe tapava as pernas, levantou-se, levantou o auscultador.
«Está?»
«Antónia? Sou eu, O Zé Costa.»
Os pensamentos rodopiaram-lhe de tão rápido que ele falou. De tão rápido como tudo contou: que teve de ir de urgência à Alemanha, que o filho lhe tinha telefonado numa noite e que ele tinha embarcado no avião no dia seguinte, que nem teve tempo de telefonar. que foi tudo por causa de uma questão urgente da venda de uma casa comercial que tinha lá na Alemanha, que, enquanto lá esteve, se lembrou de lhe telefonar, mas tinha-se esquecido do número em Portugal. E que, agora, estava ali, no café em frente, e, se a prima Antónia não se importasse, tocava-lhe à porta para verem aquela questão das termas, pois estava-se a fazer tarde para a inscrição.
A campainha da porta soou e Antónia abriu.
«Dá-me licença?»
Tinha o mesmo sorriso bonacheirão e satisfeito do dia do almoço. A mesma voz reconfortante. Talvez ligeiramente inquieta. Como, inquieta, parecia uma mão escondida atrás das costas.
«Dá-me licença?», voltou a perguntar, indeciso, apoiando-se ora numa perna ora noutra.
Ela sorriu com curiosidade e ele retirou a mão de trás das costas e apresentou-lhe um raminho orvalhado de violetas.
«Flores..., se a prima me dá licença e não leva a mal.» E logo, corado como um adolescente, os olhos duas estrelas ternas e brilhantes:
«Flores... Para ti, Antónia.»
F I M
anamar - 1989
Este conto faz parte de uma colectânea premiada com uma Menção Honrosa na IV edição (2002) do Prémio Nacional de Conto Manuel da Fonseca, promovido pela Câmara Municipal de Santiago do Cacém.
O almoço que reuniu o primo Zé Costa, os filhos, o genro, a nora e os netos foi, de facto, uma alegria. Todos estavam bem dispostos, faladores, animados. Entre o primeiro e o segundo prato, o primo já afastava um pouco a cadeira da mesa, distendia ligeiramente as pernas e repetia, batendo ao de leve com a mão na coxa forte: «Sinto-me um homem novo!». E divagava, um sorriso bonacheirão e satisfeito a entreabrir-se no rosto bem barbeado: «Eu e o Amílcar sempre fomos mais do que primos, éramos quase irmãos. Fomos criados praticamente juntos, em casa da avó, crescemos um com o outro... Os conselhos que ele me dava quando eu era aquele valdevinos que a Antónia talvez ainda se lembre... Era uma jóia de pessoa, o meu primo Amílcar!...»
O vinho cantava da garrafa para os copos. E Zé Costa não parava de falar: «Por isso é que eu me sinto hoje tão feliz, sinto-me em família, aqui com todos vocês... E, olhem, eu até começava a sentir-me um pouco sozinho cá em Portugal. Sabem como é, os anos passam, as pessoas abalam cada uma para seu lado, os amigos deixam de se ver. Mas hoje sinto-me um homem novo!»
Voltavam a esvaziar-se garrafas, enchiam-se copos, levantados com mãos já trémulas em saúdes e brindes. E Zé Costa batia de novo com a mão na coxa: «Sinto-me um homem novo, um homem novo!»
E Antónia sentia-se também uma nova mulher. Foi talvez do calor envolvente do almoço, ou do facto de estar ali, à mesa, sentada ao lado de Zé Costa, ou talvez ainda daquela quase ternura protectora que adivinhava na voz dele - se a prima Antónia sempre quiser ir para as termas de cima, podem ficar todos descansados, eu encarrego-me de que nada lhe falte... - que aquela ideia se insinuou nela. E se voltasse a casar? A casar com Zé Costa? Pois não era verdade que muita gente casava com sessenta e tais, setenta e até mais anos? E ela, afinal, ainda ia entrar na casa dos sessenta...
No final do almoço, o primo fez questão que fossem todos visitar o terreno que tinha comprado junto ao mar. «É apenas um passeiozinho, em menos de meia-hora nos pomos lá», dizia Zé Costa, logo acrescentando, palrador e afogueado: «Aliás, gostava de vos pedir uns conselhos. Sabem, estou com ideias de construir lá uma casinha, uma casinha bem portuguesa, nada dessas modernices estapafúrdias que os emigrantes tanto gostam de arranjar. Mas queria uma coisa bem feita, com todos os preceitos e confortos. Ando para aqui sem conhecer ninguém, lembrei-me que talvez os primos, que são mais jovens, modernos e com mais instrução que eu, me pudessem dar uns conselhos, indicar alguém com qualidade para eu entregar o projecto, a ver se eu não sou para aí enganado com algum construtor troca tintas.»
O mar era um imenso espelho de prata onde o sol se via em corpo inteiro. Zé costa avançava à frente, calcando com os pés a colcha verde e amarela das azedas em flor que atapetavam o terreno. Logo atrás, o filho e o genro deitavam olhos avaliadores e faziam perguntas. Os netos cabriolavam à vontade, cabritos saltitantes e azougados, entre risos e correrias. E Antónia, ao lado da filha e da nora, os olhos sorridentes e o nariz levantado numa inspiração profunda: «Que maravilha, este aroma a mar!»
«Uma grande varanda aqui, virada para o sol e o mar, para nos podermos sentar à tarde...». A voz de Zé Costa - de pé, no meio do terreno, a camisa um pouco desabotoada e os braços abertos, alto e forte como um Deus - chegava-lhe quente, palpitante de vida. E Antónia via-se recostada numa cadeira, debaixo de um chapéu de sol, a tricotar umas camisolitas para os netos; ou para os netos de Zé Costa, os “alemanitos”, como ele dizia, quando os viessem visitar nas férias de Verão. Ou então lá abaixo, a passearem os dois, de braço dado, na branca areia da praia bordejada pela água espumosa de ondas calmas.
(continua)
anamar - 1989
Nessa noite, D. Antónia não pregou olho, excitada pela novidade do encontro com o primo. Virava a cabeça para um lado da almofada e via-se de novo sentada no automóvel em que ele, gentilmente, a tinha trazido a casa. Que carro lindo e moderno!... E como ele conduzia bem!... Virava a cabeça para o outro lado e acudia-lhe um tropel de lembranças do tempo em que ela era rapariga e o primo não era ainda primo - pois só tinha passado a sê-lo depois que o casamento a fez entrar na família do marido, esse sim, primo natural do parente reencontrado, que ela só o era por afinidade.
Nessa época distante, era ele ainda só o Zé Costa, rapazola estouvado e leviano que não parava mais que uma semana num emprego e tinha fama de namorar todas as raparigas das redondezas. Até a ela... Bem, fama talvez não, que Antónia era discreta. Mas proveito, sim. Ah, como ela estremecia com aquele jeito atrevido dele!... Ainda hoje se lembrava do fim de tarde de inverno em que se tinham os dois abrigado da chuva numa casa em ruínas, então existente no cimo da rua. Caía que Deus a dava! A toalha de nuvens negras do céu escurecera tudo de repente. Antónia refugiava-se cada vez lá mais para o fundo do casebre, tropeçando em cacos e objectos caídos, sem nada ver, a fugir às goteiras que pingavam do telhado esburacado. E então ele, sem pedir licença, apertou-a pela cintura, dobrou-a toda com força, encheu-a de beijos, procurou-lhe os seios, levantou-lhe a roupa... Antónia fugiu espavorida mas jamais esqueceu tamanho e impetuoso calor. E ainda conservava a cálida lembrança, apesar dos trinta e alguns anos de permeio, do prazer delirante das mãos dele, nervosas e quentes.
O que Zé Costa tinha de atrevido e leviano, tinha ela de prevenida e atilada. Por isso abafou os ímpetos juvenis e ouviu os conselhos dos familiares para se desviar dele, estroina sem tino nem futuro, e aceitou namoro ao Amílcar Costa, primo do apaixonado. Esse sim, toda a gente concordava, era um rapaz respeitoso, atilado e com futuro - aos vinte e dois anos já tinha lugar certo como funcionário do Estado e amealhava na Caixa Económica, mensalmente, uns dinheiritos para um dia que constituísse família.
Mas, os homens põem e Deus dispõe. Afinal, o ditado era certo. O marido subira umas letras, ganhara uma ou outra promoção, mas nunca passara de um empregadito medroso que contava os tostões a ver se esticavam até ao fim do mês. O primo, entretanto, casara com a rapariga mais deslavada da rua, uma tal Bia de que ninguém se dava conta, apagada por tímidas vergonhas, sempre enfiada a um canto, sem nunca levantar a voz nem os olhos, e tão magra que quase se lhe contavam os ossos. Abalara com ela para a Alemanha e regressava todos os Verões, em gozo de férias. E, de ano para ano, vinha mais endinheirado, mais abraçado à mulher - que criava carnes e desabrochava em vivacidade e, pasme-se, em boniteza!... - e extremoso pelos filhos que lhe nasciam com intervalos regulares de três anos.
Ah, talvez fosse daquela tristeza e vazio em que vivia, mas D. Antónia ficara tão feliz por voltar a ver o primo! E ele também lhe parecera tão satisfeito de a reencontrar, até lhe viera com aquela história das termas. «Porque é que a prima fica nas termas de baixo?», dissera ele, «Olhe que as termas de cima são outra coisa, digo-lhe porque conheço as duas. São mais acolhedoras, maiores, cheias de jardins e parques com repuxos e fontes, é um prazer passear a pé por aqueles sítios. As de baixo são só o hospital e pouco mais e estão cheias daquela gente muito velha que só pensa e fala em doenças. Venha antes para as de cima, que são mais animadas, e eu faço-lhe companhia.»
D. Antónia voltava-se para um lado da cama e depois para o outro. Estava visto, não conseguia mesmo dormir e aquela preparava-se para ser mais uma noite em claro. Ah, mas não se iria ralar com isso. E não tomaria nenhum comprimido, estava decidido, quando o sono viesse logo dormia. Não me vou mortificar mais, pensou. Decidida, levantou-se da cama e enfiou o robe.
Foi até à cozinha e abriu a caixa dos bolos. Já estava quase a trincar um, comprido e com uma cobertura escura e fina de chocolate, quando uma força desconhecida, que não entendeu bem donde vinha, a deixou de braço no ar, o bolo junto aos dentes entreabertos. Voltou a meter o bolo na caixa, fechou-a, apertando a tampa com cuidado, e guardou-a no armário da despensa. «Não, coisas que engordem vão ser racionadas!» Falou tão alto e com tal determinação que quase se assustou com o som da própria voz. Mas foi calmamente, sem a tortura desenfreada dos costumeiros apetites e fomes, que descascou uma maçã, de que comeu metade.
Pelo estore entreaberto da janela, as luzes da cidade, que nunca se apagam, cintilavam no negrão da noite. E D. Antónia só não abriu completamente o estore e os vidros e se debruçou toda sobre a rua porque o bom senso lhe disse que era inverno e fazia frio. Mas deixou-se ficar ali, encostada à janela, a olhar aquelas luzes cintilantes - ou eram estrelas? -, sem sentir o frio, sem se lembrar das suas dores, e com um sentimento manso, indefinido mas bom, a crescer-lhe no peito. Sentia que estava viva e que era bom viver. Viver, viver... E aquele calor que lhe crescera no peito corria agora nela toda e trazia-lhe as imagens da filha e do genro, do filho e da nora e dos netos. Eram todos tão bons para ela e, se lhe não davam mais atenção, era porque viviam todos nesta corrida aflitiva contra o tempo que era a vida das pessoas modernas. E ela que estava sempre de má cara e chorosa... E os netos, todos ainda tão crianças e tão bonitos... Ah, os mais novos, havia de levá-los a passear no parque, sentir as mãozinhas deles, pequenas e confiadas, na sua mão grande de avó; e limpar-lhes a cara enlambuzada dos gelados e rir com eles na ingenuidade das brincadeiras infantis. Com os mais velhos, quando lhe viessem contar como correra a festa do colégio, nunca mais lhes diria que a deixassem em paz ou que estava muito doente; e nunca mais se afligiria com a algazarra que faziam com aqueles jogos de computador; e, quando a viessem visitar, nunca mais os proibiria de brincar à vontade no corredor e por entre os móveis da sala. Ah, e daria à nora aquele alfinete de ouro com pedras vermelhas, que guardara do tempo de solteira, e que sabia que ela cobiçava. A nora gostava tanto de jóias antigas e era tão bonita e as jóias ficavam-lhe tão bem e o filho era tão apaixonado pela mulher e ela por ele e, afinal, era uma grande felicidade o filho ter um casamento feliz. Também com a filha, nunca mais faria aquela cara de desagrado com as opiniões do genro que tanto a aborreciam, pois a filha ficava aflita e ela tinha uma vida tão cheia de trabalho, e, ainda por cima, o genro tinha aquele problema de ser doente do estômago, por isso mesmo, mais uma razão para apoiar o genro e a filha.
A noite clareava em tons rosa e as luzes e as estrelas empalideciam. Mas aquele sentimento quente e bom crescia no peito de D. Antónia e tornava-se forte, firme como um fruto maduro. O dia nascia e era bom viver!
(continua)
anamar - 1989
A sala de espera do consultório estava cheia e as cadeiras ocupadas. D. Antónia apoiou-se ainda mais na bengala castanha, fincou os lábios um no outro até a boca ser apenas um risco fechado e olhou à volta com olhos perscrutadores. Uma rapariga logo se levantou para lhe dar o lugar e D. Antónia foi-se sentando, cheia de cuidados demorados com ela mesma. Entremeava muitos ais com doloridos desabafos: «Ai, estas minhas costas!... Este meu reumático!... Ai, o meu bracinho!...» E ali ficou, à espera, de cabeça baixa, mergulhada em suspiros e tristezas. De vez em quando levantava os olhos, esticava um pouco o pescoço enterrado no cachecol de lã preta e perguntava à empregada do consultório: «Menina, ainda falta muito para a minha vez?». A empregada lá lhe respondia, com profissional paciência, debitando o número de pessoas que D. Antónia tinha à frente na lista de espera para a consulta.
E foi, exactamente, após o quinto massacre à empregada, quando esta lhe repetia que já não faltava muito, que D. Antónia foi surpreendida pelo timbre cheio e forte de uma voz de homem, vinda do corredor.
«Ora, então, muito boa tarde!»
O homem conversava com a empregada e ria. D. Antónia não percebia o que diziam mas aquela voz soava-lhe familiar e quente e acordava-lhe lembranças dos dias de sol do tempo de rapariga. Ligeiramente afogueada, afastou o cachecol e alisou os cabelos com a mão.
O homem entrou na sala, olhou ao redor e repetiu o boa tarde. Que sobressalto! Os anos passavam e ele continuava elegante de corpo e bonito de cara, parecia que ainda mais bonito agora que os cabelos tinham definitivamente embranquecido. Comovida, D. Antónia deixou escapulir das mãos a bengala que caiu, com um barulho seco, no chão.
Por um momento, foi a surpresa no rosto do homem. Mas logo ele se aproximou, cruzando a sala a passos largos.
«Prima Antónia?!...»
«Primo!...»
Riram, cheios de contentamento, apertando-se mutuamente as mãos.
«Mas que prazer! Que prazer!...»
Mergulharam os dois na alegria do reencontro. D. Antónia, alheada da pressa na consulta, misturava as conversas e deixava as frases incompletas na ânsia das novidades.
«Da última vez que nos vimos foi num momento tão triste, no funeral do meu marido», lembrava ela, «nem fiquei então a saber novidades da vida do primo.»
Mas logo ali se fez o ponto da situação: ele também já estava viúvo. «Também se foi de repente, a minha pobre mulher, coitadinha...», lamentou-se, e logo D. Antónia, pesarosa, concluiu: «Estamos os dois na mesma situação.»
Ele também já tinha regressado de vez da Alemanha. Tinha-se reformado e decidira voltar. É verdade que os filhos tinham ficado lá pelas Alemanhas, até tinham casado com alemãs, os netos eram “alemanitos”, nem sabiam falar o português. «Mas esta sempre é a nossa terra, não é?».
D. Antónia concordava e abanava a cabeça, as bochechas muito rosadas.
Chegou-se mais à prima e segredou: «Não é para me gabar, tenho uma óptima reforma, trouxe lá da Alemanha uns bons dinheiritos, comprei cá uns terrenos, umas casinhas, agora tudo o que quero é descanso e sossego para gozar o que possuo e o resto da vida.» E acrescentou, a limpar ligeiramente os olhos com as costas da mão: «O único desgosto que tenho é esta solidão da viuvez».
Esquecida por completo das dores que lhe tolhiam os movimentos e não a deixavam mexer-se à vontade, D. Antónia puxou a cadeira para junto do primo, cruzou uma perna sobre a outra, ajeitou a saia, dobrou-se um pouco para mais confidencialmente conversar, e perguntou: «Desculpe a indiscrição, mas o primo nunca pensou em voltar a casar?»
Ele arqueou ligeiramente as sobrancelhas, abriu devagar as mãos e adiantou: «Não é que me ache velho mas, quando se chega a esta idade, já não se tem muita paciência para começar tudo de novo com uma pessoa desconhecida.»
A empregada chamou por D. Antónia, tinha chegado finalmente a vez para a consulta. Ela levantou-se, fez menção de se despedir: «Pois é, primo, uma pessoa desconhecida é um problema.»
Mas ele não se quis despedir:
«A prima dá-me licença que eu a espere no final da sua consulta? Gostava de saber dos seus filhos, mal conversámos no funeral. Entretanto, aproveito para tratar, ali com a empregada, da credencial que cá vim buscar. É um papel para as termas. Sabe, sou um adepto da medicina preventiva e as termas são uma coisa óptima para conservar a rijeza do corpo e a saúde do espírito.»
(continua)
anamar - 1989
VIVER OU MORRER, EIS A QUESTÃO
Um milagre na vida de D. Maria Antónia Esteves da Costa - porque de um verdadeiro milagre se tratou, disso não teve ninguém dúvidas - ocorreu, exactamente, enquanto estava à espera de vez no consultório médico, para tratar da credencial necessária à estadia nas termas.
*
D. Antónia sentava-se na poltrona grande e descansava as suas dores em muitas almofadas: uma, rectangular, enrijava e endireitava as costas; duas, quadradas e pequenas, colocadas estrategicamente à direita e à esquerda, apoiavam os braços; uma outra, de cetim claro, era para a cabeça, de modo que, ao tocá-la com a face, sentisse a frescura do tecido. E nunca esquecia a almofada escura que colocava sobre um banquinho baixo de madeira onde assentava os pés, muito juntos e unidos.
E quando a empregada das limpezas, que vinha invariavelmente às segundas e quintas, depois do almoço, lhe perguntava: «Então, vai melhorzinha?», D. Antónia apertava mais a mão sobre a bengala castanha e respondia, sem mexer uma única fibra do rosto, que era gordo, de bochechas moles e descaídas: «Já não tenho melhoras». E acrescentava, após um silêncio breve: «Ficar entrevada numa cadeira de rodas e morrer para aqui sozinha vai ser o meu destino». A empregada enfiava a bata das limpezas e escapulia-se para a cozinha, arrastando com ruído os chinelos largos e repetindo: «Ora, ora, devemos ter sempre esperança...»
Mas nem sempre D. Antónia foi assim, dorida, solitária e infeliz. Pelo contrário, enquanto criou os dois filhos e o marido estava vivo, ela até era uma mulher de força e genica que levantava os móveis sozinha, sem ajudas, por ocasião das limpezas domésticas semestrais. E, para ajudar no orçamento familiar, anos a fio fez compridos serões em naperons e colchas de renda que vendia, à comissão, na retrosaria do senhor Lopes.
Tudo começou, sensivelmente, por altura dos casamentos dos filhos, ocorridos com poucos meses de intervalo um do outro. O marido ainda trabalhava nessa época e D. Antónia ficava longos dias em casa, sozinha, sem mais nada para fazer depois da casa arrumada e do espanejamento diário do pó. E foi no silêncio dessas infindáveis tardes que a voz - a princípio miúda e sumida, depois clara e mais forte - das suas dores se começou a fazer ouvir. Quando o marido chegava do trabalho ela não lhe dava descanso: «Vai-me ali buscar um copo de água e um comprimido. Dá-me aqui uma massagem nas costas. Aconchega-me aqui a roupa que eu estou sem forças.» O pobre lá ia porque D. Antónia, entretanto, tinha-se tornado autoritária e caprichosa e ele, só para não a ouvir, preferia condescender-lhe nas vontades.
Mas tudo piorou a seguir à morte do marido, que veio de repente, sem avisos, de um ataque de coração. D. Antónia passou então a consultar tudo quanto era médicos e a exigir aos filhos que a levassem, de carro, aos consultórios. E, quando estes, por motivos de trabalho, não arranjavam tempo nem disponibilidade para levar a mãe e a aconselhavam a chamar um taxi, sobrevinha então a D. Antónia um daqueles enormes e monstruosos ataques de dores que a levavam a meter-se na cama, de cabeça tapada, sem nada ver nem ouvir e recusando-se terminantemente a engolir o que quer que fosse.
Ah, como ela chorava nesses hibernamentos voluntários! Morrer, morrer era tudo quanto desejava! Pois para que queria ela viver assim, solitária e doente?... A filha mal lhe chegava à porta, enrolada com os três miúdos, eternamente ranhosos e constipados, o emprego e os transportes, sempre difíceis e morosos, sempre com bichas para lá e para cá. Bem que tinha avisado a filha e o genro para não comprarem casa num sítio daqueles, mas ninguém lhe tinha dado ouvidos... Pois era, ainda por cima com o marido que tinha arranjado - tinha-lhe saído cá um fraco e um doente aquele genro! - sempre de trombas e sem nunca ajudar a mulher em casa, tomara a filha dar conta da própria vida.
Quanto ao filho, vivia ali a dois quarteirões, era verdade, mas tinha uma vida tão ocupada, com o trabalho na empresa e o Mestrado que andava a tirar à noite... A nora, essa, é que tinha uma vida de princesa: em casa tinha empregada a tempo inteiro; na “boutique” de que era dona tinha duas raparigas a trabalhar e só lá ia para orientar o negócio. Mas a nora parecia que fazia de propósito, nunca lhe chegava perto. Quando D. Antónia se debruçava à janela, nos intervalos dos suspiros que lhe preenchiam os dias, bem a via passar ao volante do carro branco, para cima e para baixo... Ia ao cabeleireiro, ao dentista, buscar os meninos ao colégio, levar os meninos à ginástica, encontrar-se com as amigas, na casa da sogra é que nunca punha os pés.
A culpada de tudo era a nora! Parecia que estava a vê-la, sempre bem vestida e aperaltada, com aquela cintura fina que tinha e as ancas bamboleantes... Sim, porque ela bem lhe percebia as falinhas mansas. Daquela vez que tinha sugerido ao filho para a levar a almoçar aquele restaurante de Sintra, logo a nora se encostou ao marido, toda dengosa, Não te esqueças, querido, que domingo temos o encontro com a Bé e no domingo seguinte o almoço com os fornecedores.... E quando falou ao filho para lhe arranjar uma Parabólica como a que ele tinha em casa, para poder ver mais televisão - pois se era o único divertimento que lhe restava!... - a nora até tinha puxado o lenço para fingir que estava com tosse e disfarçar o riso. A culpada daquela vida triste que ela levava era a nora, não tinha dúvidas.
É verdade que tinha sido a nora a encorajá-la a ir para as termas, aliás até tinha levado o desvelo ao ponto de tratar de tudo, médico, papéis, estadia. Mas, bem a entendia: era para se ver livre da presença da sogra por uns tempos. Só podia ser isso. Aliás, quando tinha pedido ao filho que a fosse levar de carro às termas - e eram para cima de duzentos quilómetros, num sítio onde nunca tinha estado - logo a nora arranjou aquela do “auto-pullman” directo. Ainda a estava a ouvir: «É um autocarro de luxo com todas as comodidades, tem televisão, casa de banho, hospedeira para tudo o necessário e deixa-a à porta das termas.»
Bem, pelo menos tinha passado um tempo divertido nas termas. Havia de lá voltar no próximo Verão. E não estaria, por acaso, na altura de fazer a marcação e tratar de novo dos papéis? Tinha de ir ver ao calendário.
Acordada do torpor da hibernação pela urgente força de tal pensamento, D. Antónia saiu ligeira da cama, vestiu o robe e disparou para a cozinha. Que fomes que lhe davam quando melhorava! Apetecia-lhe comer tudo quanto tinha à frente. O médico bem lhe dizia que tinha de ter cuidado com o peso, por causa da coluna, mas ela queria lá saber, já era tão infeliz e sacrificada... Até nisso a nora tinha sorte, comia o que queria e estava sempre aquela elegância.
(continua)
anamar - 1989
Vou ver o filme da noite de cinema. Vera ainda berrou que era preciso arrumar a cozinha e lavar a loiça. Gonçalo, esse, que queria ver os desenhos animados do outro canal. Ora, Vera que limpasse a cozinha que ele já tinha feito o jantar, era justo. Gonçalo que fosse para a cama que não tinha idade para mais. De resto, o filme até prometia ser giro. E era o que faltava, um homem já nem era dono nem senhor na sua própria casa?
Refastelou-se no sofá.
Acomodava-se ainda quando um toque na campainha da porta o fez levantar a cabeça. Chatice!... E o filme que vai mesmo começar. Ó Vera, vai lá à porta! Vai tu, que estou na cozinha com as mãos sujas da loiça... Ó Gonçalo, vê lá quem é que tocou à campainha. Boa noite senhor Ramalho. Desculpe vir incomodar mas tive um curto circuito lá em casa, pode emprestar-me um busca-pólos que não encontro o meu? Era o vizinho do quinto esquerdo. Até nem era mau tipo de todo. Sempre sorridente, muito amável, muita conversa, a oferecer os préstimos a torto e a direito. Tudo para inglês ver pois, na prática, pouco ou nada fazia do que apregoava. Mas a vida era assim mesmo, um grande jogo de empurra e faz de conta e o vizinho do quinto esquerdo era dos poucos com quem até se podia conversar lá no prédio. Sim, porque com a maior parte da vizinhança, tudo nunca passava de bons-dias e boas-noites de conveniência, cinzentos e frios. E um bom punhado de vizinhos, a esses nem lhes conhecia a cara, apesar de ali morar havia uns largos anos. A verdade é que o espírito associativo ia desaparecendo da nossa sociedade, consumido na voragem do dia a dia. Agora vive-se uma vida num prédio altíssimo, encaixotado entre andares, sem saber se o vizinho do lado, que, por sinal, até nos despeja com o rádio em altos berros antes do sol raiar, é alto ou baixo, gordo ou magro. Do andar de cima sabemos apenas que tem miúdos irritantes que barulham e sapateiam o chão e os nossos ouvidos sonolentos. De outros andares mais altos só conhecemos a roupa que pinga água do estendal sobre a nossa janela e a nossa roupa. E da gente que vive abaixo de nós... Ah, mas aí vingamo-nos, toca a andar à vontade e fazer o barulho necessário, que isto ou há moralidade ou comem todos. A vida era assim mesmo, de resto, ninguém parecia incomodar-se com solidariedades ou não solidariedades no prédio e não era ele, Ramalho, que ia ficar preocupado com isso. Já bastavam as reuniões anuais da administração do prédio, sempre uma chatice a que poucos compareciam e, mesmo esses, unicamente preocupados em apresentar reclamações sobre problemas diversos e ficar à espera que alguém os resolvesse sem fazer ondas. A verdade é que toda a gente já trabalha muito, por isso, quando é preciso mais trabalho, o vizinho do lado é sempre o mais indicado e capaz.
Oh senhor Ramalho, sabe o que é? É que não encontro o busca-pólos nem sou muito entendido em electricidade. Pode dar um saltinho lá acima? Era cá um favor que me fazia... A voz sinuosa do vizinho. Porra de vida! Vá lá uma pessoa negar-se. É que nunca se sabe quando é a nossa vez de precisar. A merda toda é que com esta treta dos fusíveis do gajo do quinto esquerdo o filme já vai a meio e quem lhe entende agora o enredo? Um homem nunca tem uma satisfação completa.
Deixou-se ficar estendido no sofá. Deslizava-lhe o filme pela retina e pelo vago entendimento. Soavam-lhe as lamúrias de Gonçalo que não queria ir para a cama. Fazia por não ouvir as lamentações de Vera, armada em defensora da condição feminina, a clamar que a vida das mulheres era uma desgraça, só trabalho e trabalho, descanso e ajudas nenhumas. Se tivesse pachorra, levantava-se e fechava a porta da sala só para não os ouvir. Mas nem isso tinha. Deixou-se ficar estendido no sofá, as pernas moles e os braços sem força. Resvalaram-lhe pelas pálpebras entreabertas anúncios publicitários, a programação do dia seguinte, as previsões meteorológicas, fragmentos dispersos do último jornal. Levantou-se com um bocejo do tamanho do mundo e rumou para a cama pois já passava da meia noite.
Vera já dormia. Ficava bonita com o rosto corado pelo sono, farripas da franja sobre a testa, os cabelos claros espalhados pela almofada, um ar inocente de menina ainda. Sentia-lhe o calor da respiração ritmada, a onda suave do peito a pulsar, o fruto rosado da boca entreaberta. Esteve tentado em passar-lhe as mãos pelos cabelos, pelo pescoço, pelos ombros... Talvez ela despertasse... Talvez.... Não, não era justo. Vera andava cansada e já tinha adormecido. Apagou a luz fraca do candeeiro e virou-se para o outro lado.
Na escuridão, à espera do sono, lembrou-se do carro que conduzira em sonhos na noite anterior. Era lindo. Fora sonho mas que lhe importava? Sonhar, afinal, ainda era um luxo permitido. Sim, sonhar, que os sonhos às vezes eram maravilha. Recalcamentos, por ventura, ilusões, talvez. A verdade é que o prazer arrematado naqueles minutos de inconsciência dava-lhe forças no combate real do dia a dia. Seria?... Ou apenas o anestesiava?... Bem, o melhor era não se pôr com aqueles dilemas existenciais àquela hora adiantada da noite. Ainda ficava com insónias e, então, nem sono nem sonho. E ele queria dormir e sonhar. No fundo, uma leve esperança bailava-lhe na cabeça e acalentava-lhe o coração. Podia ser que um dia o sonho se tornasse realidade. E, na esperança de nessa noite dirigir mais uma vez o seu vermelho e veloz bólide, Ramalho adormeceu.
FIM
anamar – 1989
Este conto faz parte de uma colectânea premiada com uma Menção Honrosa na IV edição (2002) do Prémio Nacional de Conto Manuel da Fonseca, promovido pela Câmara Municipal de Santiago do Cacém.
Dentro da viatura, de regresso a casa, sentia-se parte de uma parada militar num desfile qualquer.
Os carros, alinhados três a três, deslocavam-se, em movimento lento e compassado, com paragens regulares nos semáforos vermelhos. Ou então nos cruzamentos comandados pelos imperativos apitos do polícia de trânsito, fardado a rigor. O frio e chuva da manhã tinham desaparecido, já nem recordações eram, e o fim de tarde fechava-se opressivo, quente e suado. Para refrescar, Ramalho abriu completamente a janela. Mas, imediatamente, uma lufada de ar fétido lhe entupiu as narinas: o tubo de escape do carro que circulava à frente largava um fumo preto e mal cheiroso. Que poluição, berrou, enquanto trancava, lépido, a janela. Aquele era bem um fruto da sociedade moderna, a poluição. Ainda por cima, multiplicado por todos os carros que seguiam na bicha, multiplicado por todas as bichas de carros àquela hora e a outras. E talvez os escapes dos carros fossem apenas uma ínfima parte do problema. Lembrou-se da ribeira lá da terra, onde tomava banho nas tardes quentes de Verão, nas férias em casa dos avós. Ele e mais meia dúzia de rapazolas, entre gargalhadas e gritos, palavrões adolescentes, correrias e brincadeiras. Em calções ou em cuecas, às vezes todos nus, a desafiar os gritos escandalizados das mulheres que lavavam os lençóis nos pegos, tiravam as nódoas das camisas e calças com bagas selvagens e punham a roupa branca a corar na relva, ao sol. Como era fresca a água sussurante e clara que cantava sobre as pedras, verdes de limos, varandas de rãs e de sapos, abrigo de peixes e enguias!... A ribeira tinha juncos, canaviais, represas que manavam água para a rega das terras cultivadas. Tinha pássaros que cantavam ao desafio, namorados que se escondiam nos arbustos das margens, gente que levava lanche e estendia mantas no chão nas horas de calor. Gente de trabalho que descansava, e dormitava, e sonhava, talvez. Um dia veio a fábrica de curtumes. Ele, Ramalho, não deu por nada porque, já então, tinha casado e vivia longe. Voltou a ver a ribeira uma única vez, com o coração tão apertado quanto o nariz, fortemente comprimido entre o indicador e o polegar. Era um cadáver desenterrado, em adiantado estado de decomposição, minado de manchas escuras e fétidas, a exalar putrefacto cheiro. Nada sobrevivera no cemitério aberto em que tudo à volta se transformara. Tudo desaparecera, peixes, batráquios, juncos, canaviais, represas, lavadeiras, namorados, pássaros, flores, rapazes que se divertiam, passeantes de lanche e tardes de domingo. A verdade é que o senhor Francisco Teotónio, dono da fábrica de curtumes, pagava multas mas não reciclava, oferecia peles e outras ofertas caras mas não investia nas necessárias obras que protegessem o ambiente e a ribeira. A verdade é que o senhor Francisco Teotónio se tornou muito rico e poderoso e a aldeia - tão moça e fresca que ele a conhecera!... - uma velha furunculosa e moribunda. Que raio de herança vamos deixar aos nossos filhos?... Como aves agoirentas a espicaçarem-lhe o consciente, acudiram-lhe à memória, fugazes, as sombras lúgubres das praias infectadas, cada ano em número maior, a oferecerem bronzeados com nomes de doenças dérmicas; do buraco do ozono e dos cancros de pele, dos pesticidas e herbicidas, das águas inquinadas e das hormonas para o gado, das devastações e incêndios, das fomes e outras misérias; e das campanhas eleitorais com salvação directa e redenção para todos os homens e todo o mundo. Ah, mas que raio de mundo e de vida vamos deixar de herança aos nossos filhos?... E ainda se o rádio desta merda de carro funcionasse...
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Lar, doce lar! A verdade é que era um alívio chegar a casa, mal passado aquele dia de trabalho, mal passada aquela viagem de regresso de uma hora, hora e meia. E tudo para percorrer uns míseros dez quilómetros. Mas já estava habituado e, para curar o lamento, pensou que já várias vezes demorara cerca de duas horas no mesmo trajecto. De caminho para casa ainda deitou umas cartas no correio de que faziam parte duas contas que o iriam ajudar a descer o já magro saldo bancário. Enfim, finalmente, lar, doce lar, e aquele sofá mole da sala para descansar o espírito e o físico desta vida moderna sem modernice nem qualidade nenhuma. Para descansar o espírito e o corpo das bichas para o trabalho e do trabalho para casa, do ordenado pequeno e da falta de dinheiro, do jantar que ainda era preciso comprar e fazer, das responsabilidade de criar os filhos e pagar as brutas contas dos colégios, do Gonçalo que não tardaria a chegar, da atenção que lhe não dava e queria dar, desta insatisfação doentia que se fingia esquecer, desta vontade tresloucada de bater, de chorar, gemer. Desta vontade de estar ali, como ele estava, sozinho, no sofá mole da sala sem nada lembrar.
Oh pai, estás doente? Não, filho, estou só cansado. Vai fazer os trabalho de casa que eu vou ali ao supermercado e já venho.
Agora era preciso preparar o jantar, pois Vera chegava tarde demais a casa. E ele que nunca conseguia fazer nada à mesma velocidade da mulher!... Ela, sim, tinha truques de malabarista que o ofuscavam, as panelas e frigideiras ao lume e a salada a ser lavada à torneira, os pratos e talheres a saltarem para a mesa e os desvios para a casa de banho a ver se Gonçalo despachava o duche, os olhos e a atenção no televisor e os bifes a fritarem lourinhos sem esturricarem nem nada. Ele, não, ou fazia uma coisa de cada vez ou saía asneira. Ainda por cima - que raio! - conseguir ver o telejornal era utópico. Nessa precisa altura estaria ele a tentar sobreviver às dificuldades do costume, a improvisar aqui e acolá. É que a comida, nas mãos dele, tinha aquela tendência para o desequilíbrio, ora ficava desfeita ora mal cozida, umas vezes quase sem sal outras apaladada de mais. Salvavam-se os clientes que não eram muito esquisitos e, se o fossem, lá no bairro havia uma tasca onde serviam comida. Que diabo, um homem não pode ter jeito para tudo!...
Claro que estava doente! Não era para estar? Doença sem sintomas externos palpáveis, ilegível em todas as análises e radiografias. Mas que o minava, disso não tinha dúvidas. Que lhe sorvia as forças, as energias, qual gigantesca e tenaz sanguessuga. Também, quem não andava doente na correria desta sociedade vibrante de novas e espantosas tecnologias pagas em prestações quotidianas de agonia e cansaço? O povo estava doente. Sim, o povo, pois uma minoria vivia com aquela qualidade de vida que ele, Ramalho, invejava. Com conforto, riqueza e até excessos. Mas esses não eram o espelho da humanidade. É verdade que havia pior, gente ao pé de quem ele até era um felizardo. Que nos quatro cantos do mundo morriam homens, mulheres e crianças entre guerras, fomes, epidemias e brutalidades. Que a eterna televisão ligada mostrava essas realidades nos intervalos das ficções. Mas a gente toma lá sentido, na distracção entre o prato e a sobremesa, se aquilo é jornal, é realidade, ou ainda uma parte do filme de acção e aventuras. A verdade é que o resto do mundo fica a anos-luz de todas as cozinhas aconchegadas, quentes de vapor e cheiro de comida, em que à noite, cansados, o pai, a mãe e os filhos comem bifes com batatas fritas e remoem as suas dores e os seus fastios, tão pessoais e tão grandes que mal lhes cabem no coração e na alma.
(continua)
anamar - 1989
O silêncio da secção só era quebrado pelo folhear esporádico dos processos que os funcionários analisavam. As costas curvadas sobre as secretárias, a cabeça apoiada numa mão, os olhos pesados a passearem sobre os papéis. Era assim depois de almoço. Até o redondo relógio de parede entrava em modorra, os ponteiros mais vagarosos e as horas mais compridas. O Silva, completamente escancarado na cadeira de braços, parecia meditar. Talvez numa nova abordagem à Anabela. Era o fraquinho do chefe, toda a gente sabia. Em segredo, bem entendido, e comentado com a discrição que vai da boca de cada funcionário ao ouvido do colega mais próximo. Nem o Silva conseguia ser assim tão discreto!... A verdade é que, mesmo nos dias em que entrava na sala carrancudo e mal humorado, assim que a Anabela se lhe dirigia para tratar de qualquer assunto, logo o chefe se transfigurava: Um sorriso largo distendia-lhe a boca afogada nas bochechas e cada poro da face balofa rebrilhava de satisfação e prazer. Por várias vezes Ramalho surpreendera frases subtis e maliciosas do Silva para a Anabela. Não era o primeiro caso, toda a gente se lembrava. Anos atrás, com uma colega novata que fora estagiar na repartição, o Silva ensaiara. Mas a colega enrubescia e os olhos redondos aguavam-se-lhe de lágrimas sempre que o chefe Silva Santos lhe soprava o hálito na explicação, mais que pormenorizada, do trabalho a fazer. A verdade é que, meses depois, a colega fora transferida para outro andar, de trabalho bem mais íngreme e pior remuneração. Segundo a chefia, dificuldades de adaptação ao trabalho, segundo os restantes funcionários - à boca fechada, evidentemente, que essas coisas não se podem dizer para aí assim... - tudo não passara de retaliações do despeitado Silva.
Mas agora, com a Anabela, era diferente.
Com a paciência de um grande pescador, o Silva ia largando o isco e a linha na esperança de uma boa pescaria. Mas este era peixe muito astuto, comia o isco e largava o anzol. Pois era, boas relações com os chefes dão fruto e aquela Anabela sabia-o muito bem - e de parva ela não tinha nada e ambição não lhe faltava. Que ela andava à caça de promoções e outras regalias, que a caça vinha toda do lado do Silva e que espantar o chefe era espantar a caça, era ponto assente. Assim, o jogo prosseguia há longos meses entre o Silva e a Anabela, entre sorrisos e cordialidades, faço que não te entendo e outras coisas que tais. As interrogações do resto do pessoal da repartição, atento ao folhetim - sim, que situações como esta davam alguma cor às incaracterísticas horas em que o relógio redondo não andava... - giravam à volta das eventuais contrapartidas que pescador e caçador teriam de se oferecer mutuamente. Curioso e mordaz, o pessoal assistia, um único e dissimulado medo a incomodar: trofeu que a Anabela arrematasse era ponto perdido para todos naquela reserva escassa de promoções e prémios por mérito.
Havia, no entanto, uma particularidade naquele relacionamento da Anabela com o chefe. Particularidade que muito boa gente tentava aproveitar com a vantagem que podia. É que a Anabela funcionava como uma espécie de canal informativo entre o Silva e o resto do pessoal da repartição. Por norma, o Silva era um poço sem fundo no que dizia respeito a todo e qualquer assunto oficial, a toda e qualquer decisão hierarquicamente vinda de cima. Mas com a Anabela o Silva derretia-se e excedia-se. E a Anabela usava e abusava. A rivalizar e com uma técnica de fazer inveja à maior parte dos órgãos informativos do país, espalhava as notícias de uma forma bem personalizada. Ou seja, dizia só o que queria e a quem queria, aumentava e diminuía o peso das coisas, escondia aqui e tapava ali. E quem queria os trunfos de estar informado, tinha de se dar bem com a Anabela. Ou, pelo menos, embora em segunda via, com alguém que se desse bem com a Anabela. Era cá uma droga!
Que droga!... Ramalho mirava o processo que tinha entre mãos, cruzado de riscos e anotações à margem, e pensava no desperdício de energias que se consumiam naquela casa. Por mais de uma vez abordara o Silva sobre uma modificação de métodos de trabalho. Em vão. Perlara-se-lhe o rosto gordo de pontos de suor, desapertara e voltara a apertar o grosso nó da gravata. Por fim fincara as mãos nos braços da cadeira. Tinha superiores. Ele, Silva Santos, era chefe mas também tinha chefes. E o chefe manda, o que o chefe acha certo, certo está. O chefe tem sempre razão. De resto, sempre se fizera assim. Não estando mal, porquê modificar? Pois era, para o Silva - apertado chefe numa cadeia de chefes - tudo se resumia e finalizava naquele imutável conjunto de axiomas. Novas fórmulas, novas técnicas, novas tecnologias eram assuntos tabu ou subversivos.
Cansado de lutas e de perdidas esperanças, Ramalho acomodou-se ao delimitado espaço da secretária. Passou a concentrar-se no relógio de parede. Uma guerra surda e permanente desenrolava-se entre os dois. Fitava-o a miúdo. Tentava transmitir-lhe, com o olhar, toda a força do seu enorme aborrecimento e fazer deslizar mais rapidamente o arrastado movimento dos ponteiros. Odiava-lhe a indiferença cadenciada com que o relógio respondia a tão frementes obsessões. E amava-o, agradecido, quando o toque das dezassete horas punha um fim libertador ao tormento diário. Era uma guerra todos os dias renovada.
(continua)
anamar - 1989
Oh Ramalho, veja-me aqui este processo. Tem de estar pronto antes do almoço. O Silva era assim, lembrava-se sempre dele para o trabalho, para o resto é que dominava o esquecimento. Já tinha visto e revisto não sabia quantos processos naquela manhã, igual a tantas outras por sinal. Agora era o urgente processo do Silva, ainda mais rabiscado a vermelho que os outros. Rabiscado por tudo quanto era sítio. Pelo Silva, claro. Indiferente ao movimento da repartição e aos olhares dos funcionários, o relógio lá prosseguia a caminhada estóica e soluçante. Por fim, entre dois riscos e dois processos, martelou as doze badaladas. Era a sacramental hora de almoço. Foi um ver se te avias. Toda a gente se levantou de rompante, direito à porta, pois não havia momentos a perder. Dentro em pouco todas as tasquinhas da redondeza estariam cheias e, para os últimos a chegar, só restaria esperar pelo fim do almoço dos primeiros. Nas calmas, claro, quem quiser que espere, ora essa...
Excepção a esta roda eram as meninas de todas as idades que comiam um rissol e uma sopinha e iriam encher os cabeleireiros ou olhar as montras das “boutiques”. Como a colega Cláudia, por exemplo. Era uma das '”vamps” lá da repartição. Sempre em cima da moda, não descurava um pormenor na figura. E que figura!... Alta e magra, qual modelo de revista, a roupa moldava-se-lhe ao corpo como uma segunda pele. Os conjuntos que usava, as meias brilhantes, os colares e as pulseiras, a farta cabeleira arruivada, os óculos escuros nos dias de sol, tudo aquilo de muito bom gosto diziam os entendidos, dizia ele que não percebia nada de moda mas que gostava de olhar... É que a colega Cláudia desorientava o mais respeitável dos homens. Ó Ramalho, vamos à tasca do costume? Era a voz possante de Gregório a desviar-lhe atenções. Queres almoçar com a gente? Agora era o Gregório, armado em brejeiro, a convidar a colega Cláudia. Convite escusado, já se sabia. Obrigada, mas tenho umas coisas a fazer, respondia Cláudia com o batôn do sorriso a brilhar e os sapatos muito altos a caminho da rua. A Cláudia até gostava de alinhar com eles, nem se importava com as piadas metediças de Gregório, mas almoçar, almoçar, era coisa que a colega não devia fazer mais que uma ou duas vezes por mês. Nos restantes dias, o almoço de Cláudia resumia-se a uns salgadinhos ou um filete no pão, a sopinha das senhoras e um café. Era preciso manter a linha e, mais do que isso, era preciso ir mantendo algum dinheiro na carteira até ao fim do mês. Senão, como é que do magro ordenado que recebia, saíam os vestidos e os sapatos, os cabeleireiros e a maquilhagem, as bolsas e os adereços a condizer. Ah, e as revistas da moda, coloridas de fotografias de princesas e outros colunáveis, belas vivendas com piscinas azuis e jardins relvados. Sim, porque milagres só na Bíblia e Cláudia preferia não comer a deixar de comprar aquelas revistas, cada uma delas mais cara que o prato do dia nas tascas da redondeza. Cláudia sabia tudo dos mexericos das vedetas nacionais e internacionais, dos casamentos da alta sociedade, das festas da burguesia endinheirada, dos desfiles da alta costura. O que ela não sabia - nem queria saber, que horror, que fastio... - era dos desempregados que sobravam no mundo, das casas que faltavam ou das que existiam entre tábuas e cartões e jardins de lama e terra, das crianças famintas e ranhosas, da poluição e outros acidentes, dos dramas e tragédias prosaicos e feios. Nada de políticas, repetia ela, e, para problemas, já bastava os próprios. Claro que não faltava gente a repetir, o que Cláudia tinha a mais no físico faltava-lhe por baixo da cabeleira loura. Mas ele, Ramalho, achava que era tudo gente invejosa e pouco tolerante, no fundo, no fundo, ela era apenas uma pobre e boa rapariga enevoada no ópio de um sonho ainda mais fundo e ilusório: encontar um príncipe encantado que a desposasse e a fizesse entrar nesses mundos chiques e deslumbrantes. Talvez até Cláudia fosse feliz à maneira dela. Às vezes a realidade era tão áspera, era áspera demais!
Parece que hoje há cozido à portuguesa, anda daí ó Ramalho. Lá foi, ele e Gregório, invariáveis compinchas da hora do almoço. De vez em quando até de uns copos à saída, um petisco e umas cervejas, uns dedos de conversa, tudo coisas para que Gregório era danado. Aquele emigrante dos campos com saudades do belo pão e chouriço da terra, algures para além do Tejo, paciências de planície para aturar as anedotas infelizes sobre os conterrâneos e conselhos na manga para acalmar as depressões citadinas dos colegas e amigos, estava sempre bem disposto. Olha que a vida são dois dias, não fiques a remoer que isso dá úlceras de estômago... Fúrias, fúrias, só as tinha Gregório contra o governo. Contra todos os governos. Apanham-se no poleiro e aí estão a cantar de galo. Amanham-se a eles e o Zé que se lixe. Oh Ramalho, já ouviste a última sobre a saúde? Agora é que vêm aí as taxas de vez. E que taxas!... Mastigava um bocado de chouriço, alternava com uma garfada de couves. Assim, de cada vez que fores ao hospital, ao centro de saúde ou fazer uma análise, tens de pagar um tanto. Penalização da grossa. O problema é que quem se lixa és tu, que já ganhas mal e descontas muito. Mais taxa menos taxa não fazem diferença ao Director Geral, que tem médico à ordem, nem ao Ministro, que tem médico e clínica... Eles bem dizem que não mas é tudo aldrabice. O povo já tem uma miséria de assistência na saúde, e agora, ainda por cima, para ter direito à miséria pagas aí e é se queres. Dois goles de tinto e Gregório aquecia. Eles bem dizem que o pessoal recorre aos serviços de saúde sem motivo válido, que passa a vida a ir às consultas sem precisar, que só lá vai buscar receitas para comprimidos e injecções que nem falta lhes faz. E que, portanto, isto é tudo para moralizar. Até parece que o divertimento das pessoas é passar umas horinhas nos consultórios. Ah, safados, isto é mas é troçar na cara da gente. E depois limpam-se dizendo que vivemos numa economia de mercado, que quem quer saúde tem de a pagar, que isto é tudo uma democracia e liberdade. Se as palavras se comessem, oh Ramalho, quanta indigestão não havia por aí...
(continua)
anamar - 1989
Ramalho deslizou pelo corredor sombrio até ao relógio de ponto e introduziu o rectângulo de cartão na maquineta. Um “clique”, indiferente e mecânico, e o registo da entrada lá ficou para posterior controle. Vagaroso, deslizou até à porta da secção. Acendeu as luzes. As empregadas de limpeza já tinham acabado a tarefa e saído, notava-se pelos cinzeiros despejados e o chão aspirado e limpo. Três filas de secretárias mudas, empanturradas de processos geometricamente arrumados, esperavam pelos respectivos ocupantes, companheiros de faina de segunda a sexta. Dirigiu-se à dele, tão igual às outras que só pelo hábito a distinguiria.
Sentou-se. Na parede em frente, como um olho enorme ou um enorme abcesso, um relógio redondo e escuro dominava a sala. O ponteiro dos segundos avançava, em soluços rápidos, numa incansável e inútil perseguição. Quantas voltas não teria ainda de dar até à hora de saída?... Como sempre, ele fora o primeiro a chegar. E, como sempre, seria o primeiro a sair. Bem, não era verdade. Só tomara esta atitude - sair à hora marcada houvesse o que houvesse para fazer - depois de muitas injustiças de que se sentira vítima. Ele era um bom profissional, pensava ainda com aquela pontinha de ressentimento que nunca conseguira esconjurar. Competência, rapidez e assiduidade eram atributos que nem o mais cara de pau lhe podia negar. Contudo, não tinham sido suficientes para concorrer com “outros” atributos nas promoções dos últimos anos. Ele bem sabia como as coisas funcionavam, ele é que não tinha estômago para certas manobras de bastidores nem alinhava nelas... Umas palmadinhas nas costas, uns galanteios absurdos, uns almocinhos em conjunto, enfim, umas engraxadelas convenientes, tinham-lhe sucessivamente retirado a possibilidade de aumentar o rendimento mensal. Outros tinham sido os preferidos. O Silva Santos, o chefe, esse passava a vida a lavar as mãos como Pilatos. Não sou eu quem decide. A direcção para aqui, os sindicatos para ali. Os seus colegas também merecem. Vai ver que, para a próxima, também vai ser contemplado. Olhe que, se for por mim, não falha. Mas ele, Ramalho, já tinha aprendido: tudo tretas!
Inexorável e indiferente, o ponteiro do redondo relógio da secção foi acumulando voltas partidas em soluços. Quantos anos tinham passado? Anos e injustiças, já deixara de os contar, numa indiferença rancorosa, pois só o rancor sobrara. Rancor traduzido naquela decisão inabalável: nem mais um minuto! E assim, decisão passada à prática e seguida à risca, agora saía sempre à hora, nem mais um minuto nem segundo. E, se era dos primeiros a entrar na repartição, o que o obrigava a tal era o inferno do trânsito, não o amor ao trabalho.
Abriu-se a porta de rompante e a estridente voz de Silva Santos aí estava: Bom dia, ó Ramalho! Chegava sempre com aquele odor intenso a especiaria a romper as riscas do fato escuro, o grito azul eléctrico da camisa, o saliente e grosso nó da gravata cravado nas bochechas balofas, o sorriso cínico a estalar, o anel no dedo mindinho. Vaidoso!... Se pensa que assim se faz passar por ilustre executivo... O relógio martelou nove horas sacramentais e um turbilhão de gente inundou a sala e um coro de refrões em muitos timbres disparou: Bom dia senhor Silva, como vai Ramalho, que trânsito hoje, tudo bem desde ontem? Bom dia, bom dia, bom dia. Em solo, a bichanar-lhe junto ao ouvido, escutou a novidade da manhã, todos os dias repetida: Oh Ramalho, ontem vi um filme que nem queiras saber. Metia cá uns borrachos... Uma até me fez lembrar o borrachinho do quinto andar com quem eu dei umas voltas por aí. Nem precisou levantar os olhos da secretária, era o “engatatão” do Ricardo a esfregar as mãos da “farra” da noite. Quem não o conhecia em todo o edifício? Ricardo e os seus engates, Ricardo e os seus delírios, Ricardo e o inevitável charme sobre o sexo oposto. A verdade é que ninguém o levava a sério. A verdade é que as mulheres do edifício, quando o encontravam, faziam um desvio de dois metros, mas, lá no fundo, olhavam-no com a comiseração que se tem por um último exemplar de espécie ainda pura, sem desvios genéticos nem mutações ambientais. Tudo sonhos na cabeça de Ricardo. Ainda o advertiu: Olha que o borrachinho do quinto andar é agora uma respeitável senhora casada. Mas já Ricardo abanava os ombros, Ora, o que lá foi, lá foi, não passa daqui, e adiantava pormenores escabrosos do filme da noite. Onde viste isso, na televisão?, admirou-se Ramalho. Qual, pá, é filme do clube de vídeo.
Pois era, o clube de vídeo. Ramalho desconfiava bem que havia mais de um ano que não requisitava um filme. Ainda se lembrava quando o vídeo fora novidade, quem não tinha um não era ninguém, ficava automaticamente excluído da roda de conversas, dos filmes vistos e não vistos, das trocas e não trocas, das gravações feitas e não feitas. E, afinal, tinha comprado o vídeo adiando a compra da máquina de lavar louça que Vera queria - só que ela queria a máquina de lavar louça mas queria também o vídeo, queria a batedeira nova com seis velocidades e programas extra anunciada na publicidade e queria também o microondas com prato rotativo que estava em promoção, queria, queria... Tinha comprado o vídeo. Afinal, Gonçalo, o filho, berrava que era o único da escola que não tinha vídeo, que também queria ver os filmes animados, que só os outros meninos é que viam, que só os outros pais é que compravam e alugavam cassetes, que eles lá na escola falavam, que.... Claro que, após a fúria inicial, o vídeo fora mais um aparelho esquecido no móvel, à espera de melhores dias. Pois se muitas vezes já não conseguiam ver televisão ou adormeciam, em frente ao écran, de tão cansados que andavam!... A verdade é que se compravam electrodomésticos a mais. A verdade é que se compravam coisas a mais. Compre agora e pague em seis meses sem aumento de preço. Campanha Primavera, uma viagem à Turquia para duas pessoas. Paradisíaca estadia nas ilhas Seychelles, número a sortear. Responda na volta do correio e receba um colar e pulseira com banho em ouro. Oportunidade única, tapete persa genuíno, restos da exposição do casino. As coisas que se compravam sem querer!... As coisas que se compravam e mostravam aos vizinhos e aos colegas, aos amigos e aos inimigos disfarçados de amigos, à família e aos conhecidos. Eu tenho isto, eu comprei aquilo, o meu é “top line”, custou-me tanto e a pronto. Raramente se utilizavam as ditas coisas, arrumavam-se a um canto após a rodagem, eram até um belo entulho a encher aquele metro quadrado que dava pelo nome de despensa, mas aquela satisfação do sorriso verde inveja dos amigos enroupados de inimigos e vice-versa?!... A verdade, a verdade, é que a altura de cada um se mede em metros de electrodomésticos, pelo brilho das viaturas que se possui, pela etiqueta dos fatos que se veste, pela marca da zona em que se vive, pelo local onde se passa férias. Que interessa o resto? Em verdade, em verdade vos digo, quem não alinhar neste jogo será sempre um bastardo nos reinos da terra.
(continua)
anamar - 1989
Um carro buzinou. Meteu a primeira com rapidez. O verde dera um ar da sua graça e não havia tempo a perder. Cada minuto que passava contribuía com algumas centenas de carros para o pandemónio do trânsito matinal. Os carros seguiam colados uns aos outros, pois, à mínima folga, surgia, sem se perceber donde, um intruso a preencher o espaço. Nos entroncamentos, os pará-choques mediam forças entre si na batalha do “quem passa primeiro”. Os semáforos só eram respeitados “in extremis” ou quando algum agente policial circundava por perto. As marcas sinalizadoras no chão, quando visíveis, eram pura e simplesmente ignoradas. As verticais faziam parte de um conjunto de ornamentos de passeio pois não lhe era reconhecida outra função. O código da estrada era um objecto de museu e as regras de trânsito definidas segundo os conceitos e conveniências de cada condutor. A ânsia do passar primeiro dominava tudo e todos. E cada dia era mais difícil passar primeiro pois cada dia havia mais gente a querer, à força, fazer parte dos primeiros.
A fila de carros que, até aí, rolava lentamente, parou de súbito. Começaram a ouvir-se buzinadelas. Num crescendo rápido, tornaram-se num verdadeiro concerto desafinado e sem maestro. Pensou com os seus botões: Se fosse a Vera a vir aqui neste pandemónio ainda era pior para ela. Suspirou, aliviado daquele indisfarçável mal estar que sempre sentia por ser ele, invariavelmente, a trazer o carro.
Abriu por completo a janela e espreitou a razão da algazarra. Mais à frente, dois homens - actores duma burlesca comédia - gesticulavam com frenesim. Olhou melhor e logo compreendeu: a traseira de um carro tinha sido beijada com violência pela frente de um outro. Apáticos e talvez a saborear aquele beijo fogoso, os carros esperavam pacientemente que os respectivos donos os descolassem. Uma multidão de mirones começou a rodear os protagonistas do espectáculo e imediatamente choveram palpites sobre quem tinha ou não razão. O tempo e a pressa, porém, falavam mais alto e o comboio de viaturas, depois de algumas manobras mais ou menos complicadas, lá se foi desembaraçando dos espinhos que aqueles dois amolgados carros provocavam. Dia sem acidentes não é dia, pensou. Pois era, este percalço fazia parte integrante do quotidiano. A grande luta - a dele e dos outros - era para não fazer parte activa do espectáculo. E depois era aquele sacrifício de amealhar uns cobres para a aquisição dum carro novo. Aquela luta mensal com o orçamento para lá caber a mensalidade do “stand”. Aquela ginástica que se fazia para que, do ordenado do costume, sobrasse o dinheiro necessário para a gasolina do mês. E aquele fastio dos seguros, dos impostos de circulação, das manutenções e de um rol de outras coisas que apareciam quando menos se esperava. Ter um acidente e ser considerado culpado era, para muito boa gente, a facada fatal no orçamento familiar. Mas quem não quer problemas, ou não compra carro ou deixa-o quietinho à porta de casa. Embalado por este pensamento, mudou de faixa com rapidez, acelerou e meteu a quinta.
O trânsito fluía agora rapidamente e a confusão de há pouco diluíra-se como por encanto. Em poucos minutos desembocou no beco traseiro do edifício onde trabalhava. Agora era o estacionamento, outra dor de cabeça de todas as manhãs... Felizmente, um espaço minúsculo entre duas viaturas aguardava ocupação. Eram as vantagens dos pequenos carros, em qualquer buraquinho se arrumavam. Apressou-se a apanhá-lo antes que algum outro esperto por ali aparecesse. Olhou o relógio. Faltavam ainda mais de vinte minutos para picar o ponto na repartição, tinha tempo de sobra para a bica e o jornal.
*
A bica matinal tinha lugar marcado no café em frente e a compra do diário no quiosque do senhor Arnaldo. E a conversa do costume também, invariável e repetidamente despejada entre o contar dos trocos: Bom dia senhor Ramalho! Tudo bem? Aqui tem o seu jornalinho e passe muito bom dia. Enquanto saboreava o café deitou uma vista de olhos pelas gordas. Era uma atitude mecânica, sabia que não ia encontrar nada de novo, o que ele nem sabia era porque continuava a gastar dinheiro no jornal. As notícias relatavam os acontecimentos do costume. Confrontos nos países Árabes. A facção de um Mohamed qualquer cortara relações com o grupo de um qualquer Mustafad. Judeus e árabes continuavam a amar-se como o cão e o gato. Prosperamente - oh ironia sádica!... - a fome no terceiro mundo proliferava. De outras fomes, mais recatadas e discretas porque noutros mais civilizados países, não falava o jornal. As potências, cada uma por seu lado, continuavam a puxar a brasa à sua sardinha. A economia mundial, os States e o Japão, o Bundesbank e a União Europeia, os dólares e os marcos, tudo entre os altos e baixos do costume, nada de novo, mandavam os de sempre e o resto era conversa. Por cá, na nossa portuguesa província, a constitucional maioria, democraticamente eleita, dava cartas. Palavras e “bluffs”, aventuras no escuro mal dissimuladas, só conversa, só conversa... Quem pode manda, quem manda pode... E, no meio destas trivialidades, lá aparecia um crime passional que, com duas ou três facadas mal dadas, tinha levado outros tantos para a esquadra ou para o hospital. Deteve-se numa notícia. O Porto vencera na véspera o eterno rival da capital, o Benfica, numa eliminatória para a Taça de Portugal. Já sabia do acontecimento mais do que dizia o jornal mas voltou a ler de alto a baixo. Tinha de atirar uns piropos ao colega Cardoso... Aquela águia ferrenha devia estar em pólvora!... Quando o clube dos seus amores perdia, ninguém o podia aturar. E o que ele, Ramalho, se deliciava a disparar umas setazinhas envenenadas sobre o desgraçado!... E era ver o outro a defender-se como podia, do caseirismo do árbitro ao roubo de uma grande penalidade, dos fora de jogo inexistentes a penalizar a equipa, da cacetada que fizera sair em maca um benfiquista ao disparate do esquema montado pelo treinador... Tudo valia para Cardoso, desaires da sua equipa é que não. Por certo o iria encontrar à secretária, branco como a cal e com umas grandes olheiras, consequência da ressaca da noite anterior. Depois do jogo, era certo e sabido, fora afogar as mágoas numa qualquer cervejaria e, depois do bucho cheio, descarregara em casa as sobras da mágoa. Seria sorte a mulher de Cardoso, colega de trabalho também, não aparecer maquilhada com uns vergões desenhados pela mão do marido... Os filhos, adolescentes espigados e astutos, teriam por certo feito uma noitada extra para fugir à sanha do pai e só regressariam a casa depois deste ressonar. Brandos costumes os nossos!... Mas, afinal, neste mundo tão derramado de candentes problemas e complicados assuntos, isto eram banalidades supérfluas, pormenores sem importância nem peso... Mas que ele tinha pena do Cardoso, lá isso tinha. Não passava de um pobre diabo, essa é que era a verdade. Com um ordenado miserável duplicado pela mesma miséria que era o ordenado da mulher, com os três filhos na escola a estragarem um par de ténis por quinzena, quantas vezes não o tinha visto, encostado ao balcão do “snack”, a almoçar um copo de tinto e um ou dois pastéis de bacalhau... As refeições magras eram o dia a dia. Dinheiro para um móvel ou para uma roupa nova e decente não havia. Divertimento era palavra desconhecida no vocabulário de Cardoso. Perdão, existia essa palavra mas escrita de uma outra maneira: Futebol. Mais concretamente, Benfica, pois futebol era Benfica e o resto eram lérias. E dinheiro para o futebol tinha de sempre haver nem que mendigado aqui e ali. Por mais de uma vez tinha visto Cardoso esgueirar-se por entre as secretárias da repartição, a prometer mundos e fundos em troca de uns míseros quinhentos paus que lhe faltavam para a compra do famigerado bilhete para o “derby” do domingo seguinte. A ele, Ramalho, também já lhe viera com a velha história da doença da mulher ou com a dos livros da escola dos filhos. Só que ele não alinhava nesses contos. Por isso, com determinação, sempre retorquira: Oh Cardoso, quem não tem dinheiro não tem vícios! Tu já viste os milhares que esses gulosos não ganham por mês enquanto tu nem ganhas para comer decentemente? Andas a roubar da boca da tua mulher e dos teus filhos para engordar essa mafia. E Cardoso, cabisbaixo, voltava a sentar-se à secretária, perscrutando em redor na mira de encontrar um pato a quem comover com a velha história. Mas que ele tinha pena do Cardoso, lá isso tinha. Esta vida era cá uma roda, cá uma engrenagem!...
Dobrou o jornal com um suspiro inaudível, pagou a bica e dirigiu-se para a repartição. Entrou no amplo hall, austero e frio, suportado pelos enormes pilares de pedra, todos decorados de alto a baixo, estilo manuelino ou coisa que o valha, e onde qualquer sapato, ao assentar no chão, desencadeava ecoantes trovões. Esperou o elevador que vinha a descer, carunchoso e trôpego de muitos anos de trabalho e pouca manutenção, em contraste vincado com aquela arquitectura rebuscada. Com um profissionalismo devoto e os escassos cabelos artisticamente penteados, a disfarçar a calva, o senhor Leal, o ascensorista, despachava clientes e os habituais cumprimentos pelos vários pisos do edifício. Bom dia senhor Ramalho, bem disposto? Mais um dia, tem de ser... Quando as paragens eram muitas e a viagem demorava, lá esticava a conversa como podia: Então que me diz deste tempo? É só frio e geada, chuva da boa nem vê-la. Se continuar assim vai ser uma desgraça. Olhe o meu poço já quase se vê o fundo. Qualquer dia já não tenho água para a minha horta. Quando chegar o Verão nem quero pensar. Isto é que vai uma crise!
Pois era. O senhor Leal era o ascensor e a horta. A horta de que falava no ascensor, o ascensor de que descansava na horta. E que grande horta! Ele era batatas, feijão, cebolas, couves, fruta... Até um pouco de azeite e vinho, no sequeiro para lá da horta. Tudo só para a casa e alguns amigos, fazia questão de dizer. Trouxe-lhe uma couve portuguesa e uma garrafinha de tinto lá das minhas produções. Acompanhe-me isso com um bom bacalhau e diga-me depois... O orgulho do senhor Leal era proporcional ao tempo e trabalho que dispensava à horta. Sim, porque ele trabalhava que nem um mouro, dedicava àquelas terras as horas de descanso, fins de semana e férias. E todo o trabalho feito a poder de braços, pois lá na quinta não era viável um tractor, ele também não tinha dinheiro para tanto. Mas o resultado estava ali, traduzido na qualidade e sabor daqueles deliciosos produtos, só superados pelo orgulho e satisfação do próprio senhor Leal.
Entre duas paragens do ascensor, acrescentava, em jeito de desabafo: Mas também, se não fosse a horta, tinha lá vencimento para certas farturas? E sabia do que comia, e isso era o mais importante. Sim, porque ele era contra os métodos modernos de agricultura. Lá na horta dele só se utilizavam os estrumes dos velhos tempos, não entravam essas coisas de agora de pôr adubo químico para aqui, pesticidas para ali, injecções nos vegetais... E depois têm uma alface feita em meia dúzia de dias. Sim senhor, muito bem! Mas depois comem a dita alface, que sabe a tudo menos a alface, e vão parar ao hospital no dia seguinte. Ou então não vão mas ficam para aí, nem doentes nem saudáveis, a queixar-se que andam intoxicados e sem forças, com dor de cabeça e azias... Isso é tudo por causa dessas modernices da agricultura moderna, cheia de produtos com aspecto formidável, calibração segundo regras internacionais mas de sabor diluído e efeitos duvidosos para a saúde humana. As coisas querem-se segundo a natureza...
Mas olhe lá, ó senhor Leal, acha que, com os métodos que usa lá na sua quinta, a agricultura era competitiva? E o senhor Leal respondia com um sorriso bonacheirão: Olha a novidade!... Mas por causa dos lucros é que andamos todos doentes e cansados, é a factura. Acredite no que lhe digo, amigo, a vida nunca se deu contra a natureza, mais tarde ou mais cedo a coisa paga-se!...
(continua)
anamar - 1989
O BÓLIDE VERMELHO
O carro deslizava velozmente pela estrada deserta àquela hora da noite. Apesar da velocidade sentia-se seguro. A máquina excedia todas as expectativas. Tivera um certo receio ao adquiri-lo, visto aquela marca ser desconhecida no país, mas fora uma aflição de poucas horas. Agora todo o seu ser, todo o seu ego, vibrava com o deslumbramento que provocava na via pública. O bólide vermelho tinha sido a estrela da noite no parque de estacionamento da discoteca onde tinha ido com a mulher. Um prazer colossal apoderou-se dele enquanto o carro abria caminho por entre as filas de arvores que corriam na névoa da noite. Sentia-se mais quente e cheio, mais forte e poderoso, e um irresistível sorriso, de pura satisfação, dançava-lhe nos lábios entreabertos. A vida era bela! Bela e fácil, sem curvas nem veredas apertadas. A vida era uma imensa e larga auto-estrada que lhe pertencia e onde ele voava.
Ao lado, suave e carinhosamente encostada nele, a linda mulher dormitava, por certo fatigada de tanto passos de dança. Mas ele, naquele momento, não queria saber de mais nada. Nunca sonhara que se pudesse atingir um grau de domínio e de êxtase como aquele que agora sentia, ao volante do seu novo carro. Nem quando fizera amor com a linda mulher agora adormecida. Vindo das profundezas, um som estranho, um “clique” prolongado, invadiu-lhe o subconsciente. Fez um esforço para afastar o intruso do caminho. Contudo, o som não se afastou. Pelo contrário, aumentou de intensidade. Era agora uma sucessão ritmada e frenética de “cliques” metálicos que lhe penetravam e enchiam os ouvidos. Em vão. Começou a entrar em pânico. Aquela noite não podia acabar assim. Ainda faltavam alguns quilómetros para chegar a casa. De repente, numa explosão com epicentro dentro da própria cabeça, tudo rebentou em mil estilhaços.
Abriu os olhos. Estava escuro. Uma luz ténue vislumbrava-se, ao alcance da mão, e um ruído execrável perturbava o silêncio do quarto. Estendeu o braço e, maquinalmente, desligou o despertador.
Virou-se de barriga para baixo e tentou ainda, nem que fosse por um momento breve, sentar-se de novo ao volante do carro que, poucos segundos antes, conduzia. Implacável, a realidade, feita de um tic-tac surdo de relógio, obrigou-o a olhar as horas. Suspirou. Levantou-se, pesaroso e cansado, e rumou para a casa de banho.
*
Ao fechar a porta do prédio procurou, com o olhar, o lugar onde deixara o carro estacionado de véspera. Por entre a névoa difusa que penetrava o estremunhado bairro, naquela manhã, lá descobriu o velho R5. Indiferente e prosaico, aguardava o passeio matinal. Mal disfarçados pelas gotas de geada que caíra durante a noite, adivinhavam-se, aqui e ali, escuros pontos de ferrugem. O pára-choques estalado e a amolgadela na traseira tinham o ar doído e cansado de duas velhas feridas. Abriu a porta com um safanão seco. Mal se sentou ao volante, logo uma sensação de desconforto lhe invadiu o corpo. Que frio e humidade no interior do veículo!... Como se não bastasse, aquele maldito banco, deformado pelo tempo e pelo uso, piorava de dia para dia. Mecanicamente introduziu e fez girar a chave de ignição. Para não variar, o carro só pegou à terceira. Abriu até meio o vidro da porta. Áspero, o ar da manhã eriçou-lhe o rosto e ajudou-o a acordar, de vez, para a rotineira viagem a caminho do trabalho.
O deslizar solitário do carro produzia um som estranho que cortava o adormecido silêncio das ruas ainda desertas. Mas, rapidamente, como assaltantes ágeis, outros carros desembocavam da direita e da esquerda e, pouco depois, era já uma fila compacta que engrossava mais e mais. As ruas enchiam-se de gente apressada, expelida das portas dos prédios altos e fechados. Gente que apertava os braços de encontro aos casacos grossos de inverno e corria, em passos miúdos e travados, para as paragens de transportes públicos. Quando alcançou o centro da vila, núcleos de pequenas multidões, ordenadas em comprimidas bichas, aguardavam, com impaciência mal disfarçada, os autocarros com número e destino marcado nas placas das paragens. Eram verdadeiros pelotões - de cujo exército ele também fazia parte - que todos os dias tomavam de assalto a capital, para mais um dia de trabalho.
Começou a chuviscar. Comprimido no lento comboio de carros que entretanto se formara, sem fuga nem opção possível, farrapos de pensamentos perpassavam-lhe pelo cérebro com a mesma insistência pegajosa, desordenada e miúda, da chuva que caía. Já passava agora das sete da manhã. Em casa, dentro em pouco, também o despertador daria a Vera o sinal de partida para mais um dia. Pobre Vera! Ela, que se tinha deitado tão tarde na noite anterior, atarefada com a roupa por engomar e a arrumação da cozinha... E logo ela, que andava tão cansada, com tanta necessidade de dormir... Um sentimento de piedade invadiu-o, tão doloroso quanto impotente. Revia o sacrifício de Vera para se levantar, a batalha surda entre o galgar dos ponteiros do relógio, entrevistos pelos olhos meio adormecidos, e o apelativo e quente aconchego da cama. E depois, para além de se aprontar, Vera teria de acordar o filho, Gonçalo. E este, como a maior parte dos miúdos, fazia as fitas do costume. Estava sempre cheio de sono e, para o fazer sair da cama, era preciso uma grua. Depois era o problema do vestir. Se Gonçalo ficasse sozinho acabaria no dia seguinte. Já sabia, Vera optava, irremediavelmente, por ajudar a abotoar os botões da camisa e os atacadores das botas, compor a camisola e apertar-lhe o cinto. Irremediavelmente, pois Gonçalo contava sempre com aquela “marmelada” matinal e Vera, em contrapartida, ia atrasar-se sem pena nem agravo. Claro, se fosse com ele a música seria outra!..., pensou, a sentir uma pontinha de orgulho, quase vaidade. Mas ele era pai, era homem, e Vera era como a maior parte das mães, um pouco fracas com os caprichos dos filhos. Claro que a mulher, se estivesse ali, a escutar-lhe os pensamentos, atalharia logo com aquela do machismo e as acusações do costume. Até parece que a estava a ouvir, que ele tinha a mania da superioridade masculina e uma maneira retrógrada de ver as coisas.
Tretas!... Seria?!... Ou existiria alguma ponta de verdade nas acusações de Vera? Não, ele sabia era impor-se. Impôr a sua masculina autoridade de pai. Com ele, o filho não abusava como fazia com a mãe. Essa é que era a verdade. E, para melhor reforçar a certeza dessa verdade – que lhe agradava mais que as dúvidas... -, pôs-se a pensar que não havia um único dia, lá em casa, sem drama ao pequeno almoço. Se não era o leite que estava quente era o pão que era duro. Revia os olhares de Vera para o relógio, cada vez mais insistentes e angustiados, os minutos mais rápidos, o miúdo mais mole e atrasado, os nervos mais comprimidos... Come. Despacha-te. Olha a carrinha que está a chegar. E, dentro em pouco, ameaça feita realidade, ouvia-se um apitar demorado. Era a carrinha do colégio, apressada e insistente. Já viu o que era se ficássemos cinco minutos à porta de cada miúdo à espera?!... Claro, claro, ela compreendia. Despacha-te. Bebe o leite. Frenética, em fracções de segundo, Vera ajuda Gonçalo a vestir o “kispo” e a pôr a mochila à costas e dita o sermão habitual: Porta-te bem. Está com atenção nas aulas. Vê se não te sujas. Cuidado para não caíres nem te magoares. Mas Gonçalo ouviria o recado nas escadas, que desceria a dois e três degraus, na ânsia de chegar à carrinha e aí contar a última novidade que aprendera ou mostrar a mais recente construção que tinha feito com os “legos”. Mas já Vera, no quarto do filho, alternava a sumária arrumação com resmungadelas surdas pois, como de costume, os cobertores semelhavam enrolados chouriços, o pijama jogava às escondidas com as almofadas espalhadas pelo chão e o procurado boné encontrava-se, afinal, pendurado no candeeiro da secretária. No meio desta correria, o cérebro de Vera procura, no banco de dados das congeladas existências alimentares da arca frigorifica, o que pode tirar para ir descongelando para a ementa do jantar. A acelerar, Vera mal tem tempo para enfiar um copo de leite pela garganta abaixo e trincar uma côdea de pão antes de fechar a porta do apartamento. A entravarem-lhe os passos, a pesarem-lhe nos pensamentos, as sombras negras das habituais dúvidas: O gás estará fechado? As torneiras não terão ficado a pingar? As janelas abertas ou fechadas? Já no elevador olha o relógio, falta meio minuto se o autocarro não vier atrasado, engole o último bocado de pão, mira-se no espelho, que alegria e que tristeza haver um espelho no elevador, aproveita-se para ajeitar o cabelo, retoca-se, com a ponta do dedo, o baton dos lábios, mas dá-se conta – e ainda o dia mal começou - como estamos com olheiras...
As mulheres são umas complicadas, não percebem que o espelho do elevador tem outras funções?!... E este trânsito que não anda mesmo... Ainda se o rádio do carro funcionasse!... Também Vera está agora à espera mas na paragem do autocarro, encolhida entre o frio e a chuva que lhe fustiga as pernas, uma entre tantos outros que olham, nervosamente, minuto após minuto, o movimento cadenciado dos ponteiros do relógio na esperança que o autocarro seja mais rápido. A chegada deste põe fim ao suplicio mas dá início a outra tragédia. Como é habitual, o autocarro vem a abarrotar. Por entre uns empurrões e uns pedidos de desculpa, Vera lá consegue um lugar. De pé, claro, pois lugares sentados pertencem ao passado. E assim, até chegar ao trabalho - onde passará sete compridas horas, excluindo a do almoço -, a equilibrar-se no meio daquela amálgama apertada de gente, por entre umas pisadelas, uns distraídos pedidos de desculpa, umas contorções de coluna por força de uma ou outra travagem súbita, Vera tem cerca de uma hora para meditar nos prazeres da vida moderna.
(continua)
anamar - 1989
Cardoso limpou devagar os olhos húmidos com a palma da mão e depois ajeitou com cuidado as pequenas tábuas com que estava a construir o brinquedo para a neta. Desde que metera mãos à obra - e já ia adiantada - não havia dia nenhum em que não se lembrasse do abraço e da voz rude do subchefe de Redacção: «Você merece, oh Cardoso!»
Levantou-se. De vez em quando sentia aquilo, uma dificuldade em respirar, uma opressão no peito. A mulher afligia-se, a filha repetia que talvez fosse psicológico, mas, tanto uma como outra, insistiam para que ele fosse ao médico. Desabotoou alguns botões do casaco do pijama e massajou devagar, à altura do coração. Sentia-se oprimido. Como se tivesse uma tristeza grande.
Foi até à janela. O sopro do respirar esforçado bateu nos vidros fechados e embaciou-os, formando uma cortina opaca que se interpôs entre ele e a rua, indefinindo e distanciando tudo o que se avistava lá fora. Abriu a janela com um safanão e logo o vento frio do inverno lhe fustigou o rosto crispado e arrepiou o peito meio descoberto. «Este inverno nunca mais se some de vez», gritou, entre dentes, e fechou com raiva a janela.
Começou a dormir mal. Acordava a meio da noite, dava duas ou três voltas na cama, virava-se para um e outro lado, mas depois tinha de se levantar. Era aquela falta de ar, aquela dificuldade em respirar. Ia até à cozinha, às vezes comia qualquer coisa, aquilo passava ou então sentia-se mais aliviado e voltava para a cama. Talvez a filha não andasse muito longe da verdade. Devia ser coisa psicológica, que era uma maneira moderna de se dizer que era cisma. É certo que ele nunca fora homem de cismas. E nem de doenças ou achaques. E nem de médicos. Mas, quando o inverno levantasse, havia de ir a uma consulta. Ou então dar umas voltas por aí, para espairecer e emagrecer um pouco. Sim, emagrecer, porque desde que se reformara - até custava a entender!... - não comia quase nada, mal petiscava qualquer coisita e estava a ficar gordo, com a cara papuda e os braços balofos.
Com a chegada da primavera e dos primeiros calores, que vieram de repente, a opressão agravou-se. Aquele bafo quente que saía da terra a acordar, espreguiçando-se ainda da sonolência do inverno mas já a rebentar de seiva, de flores e de frutos germinados, parecia asfixia-lo. Aquela electricidade que pairava na atmosfera, coalhada de nuvens e de trovoadas, não o deixava respirar.
Já tinha ido ao médico que o mandara fazer uns exames e umas análises, alguns já tinha feito mas os resultados demoravam, outros ainda nem tinha ido marcar. Agora, já quase que nem conseguia dormir. Recostava-se numa cadeira de descanso que punha na varanda e ficava para ali a contar as estrelas e a sentir os ruídos que quebravam o silêncio da noite: um carro ou outro que passava, um cão que ladrava na rua, gente que às vezes falava fora de horas. Corria-lhe pelo pensamento um enredo de coisas a despropósito. O ribombar da voz do subchefe de Redacção, o “Bulldozer”, misturava-se com o falar sinuoso e escorregadio do Engenheiro Gomes e com as conversas animadas da rapaziada lá da empresa. As vezes nem sabia se estava acordado se a dormir. Via-se de novo encostado às mesas de montagem, confiando os segredos da arte aprendida na experiência de muitos anos, dos tempos em que tudo era ainda a chumbo e mais complicado de fazer, aos gráficos mais jovens e inseguros. Tantos que tinham aprendido com ele! Alguns tinham-se tornado profissionais briosos e competentes. O Zé Fernandes, por exemplo, e outros, muitos outros. Onde estaria a gravura que o Director lhe tinha dado na festa comemorativa dos cinquenta anos do jornal? Sem dúvida arrumada numa gaveta, junto ao álbum das fotos e a outras lembranças que se vão guardando como sinais da vida.
Não foi difícil encontrar a caixa com a gravura. Premiu o fecho metalizado com um “clique” leve e seco e a caixa abriu-se. Lá estava a gravura, aconchegada entre o almofadado cor-de-vinho, escurecida pela luz fraca do candeeiro do móvel. Olhou-a com o ar admirado com que se observa uma coisa conhecida mas que se não vê há muito. Passou-lhe a mão por cima e sentiu as rugosidades com a ponta dos dedos. Afinal, era mais leve e pequena do que lhe parecera ao recordá-la. Sem aviso, um relâmpago entrou pela janela e feriu a obscuridade da sala. Cardoso levou as duas mãos ao peito, num sobressalto, contraindo contra ele a caixa e a gravura. Era de novo aquela falta de ar, agora mais aguda e urgente. Ao longe, esmorecido e distante, perdia-se o ruído do trovão.
A tactear as paredes, encalhando nas arestas dos móveis, aos tropeções, Cardoso conseguiu chegar até ao quarto e atirou-se para cima da cama. A caixa e a gravura, cada uma para seu lado, caíram no chão sem ruído, amortecidas na queda pela lã do tapete. A mulher de Cardoso acordou assustada e acendeu a luz.
*
A notícia da morte de Cardoso deixou toda a gente consternada lá na empresa. «Ainda há tão pouco tempo andava ele por aqui cheio de saúde!...», repetiam os gráficos, a olhar à volta, como se acalentassem alguma vaga e secreta esperança de o ver aparecer de novo por entre as mesas de montagem. «Ainda nem fez um ano que ele se reformou...», acrescentavam, a abanar a cabeça.
No velório, Zé Fernandes abeirou-se da viúva e perguntou, num murmúrio, tolhido pelo medo respeitoso da presença da morte:
«Foi do coração?»
A mulher de Cardoso acenou afirmativamente com a cabeça.
«Tão seu amigo que ele era, o meu pobre Manuel», lamentava-se ela, por entre lágrimas, segurando devagar as mãos de Zé Fernandes. «De si e de tantos colegas lá da empresa.»
Demorou-se algum tempo agarrada ainda às mãos do antigo companheiro de trabalho do marido, e depois acrescentou, numa lucidez angustiada:
«E eu que fiquei tão feliz quando soube que ele se tinha reformado... Como me enganei!... O meu pobre Manuel aborrecia-se muito por não ter nada de importante para fazer... Por mais coisas que ele inventasse para queimar o tempo, sentia-se muito sozinho... Sentia-se um inútil, um inútil!... Nunca se conseguiu habituar, o meu pobre Manuel. Foi decaindo dia após dia, entrou naquela tristeza. Foi isso que o matou!»
E ficou-se a repetir, numa explosão incontrolável de lágrimas: «Foi isso que o matou! Foi isso que o matou!»
Fim
anamar - 1989
Este conto faz parte de uma colectânea premiada com uma Menção Honrosa na IV edição (2002) do Prémio Nacional de Conto Manuel da Fonseca, promovido pela Câmara Municipal de Santiago do Cacém.
À medida que o inverno avançava, envolvendo os seres e as coisas num anel de frio e mirrando os dias, cada vez mais escurecidos, Cardoso foi-se desabituando de sair.
Tomava o pequeno-almoço e deixava-se ficar de pijama e chinelos, a arrastar-se devagar pelas três assoalhadas da casa, espreitando, de tempos a tempos, com o nariz colado aos vidros fechados das janelas, o vento que abanava as copas das árvores e levantava, no ar, remoinhos de folhas secas. Que inverno ventoso e frio aquele!... De vez em quando ia até à sala, ligava a televisão e ficava a olhar, distraído, enquanto o grande relógio de parede cantava monotonamente as horas que passavam.
No fim da manhã levava a televisão para a cozinha e, enquanto petiscava qualquer coisa que a mulher lhe tinha deixado meio cozinhada de véspera, ficava a ver a telenovela brasileira da hora do almoço. Tinha-se tornado um hábito. E também a da noite, que ele costumava ver, depois do jantar, sentado no sofá da sala, em companhia da mulher. Agora conhecia os personagens e estava por dentro de toda a trama das histórias. Se lá a rapaziada da empresa soubesse que ele, agora, andava a ver telenovelas, o que não se iriam rir dele, os malandros?!..., pensou de si para si. Mas também não iam saber, que ele não estava a pensar contar-lhes tal coisa, e assim, pelo menos, distraía-se um pouco com aqueles enredos.
Depois do almoço, então, Cardoso vestia-se para ir à rua beber café. As vezes deixava-se ficar mais um pouco, sentado à mesa solitária, a ler as páginas abandonadas de um qualquer jornal. Ou encostado ao balcão, em três dedos de conversa com o empregado e um ou outro conversador de ocasião que aparecesse por ali. Mas, àquela hora do dia, na zona onde morava, não eram muitas as pessoas conhecidas que ele podia encontrar, abalado que tinham, logo de manhã, para os empregos dos quais só regressavam à noite. E as ruas e cafés do bairro ficavam todo o dia meio adormecidas, silenciosas e paradas.
Cardoso voltava para casa a respirar com esforço, oprimido por um tédio que se ia enredando nele como uma teia.
Jogava-se então a diversas coisas que tinha descoberto em casa para arranjar e fazer. Nas semanas anteriores, já tinha construído a bancada para as flores da mulher, substituído tomadas que não funcionavam e até tinha forrado, a papel de veludo, as gavetas do móvel antigo que estava no corredor. Faltava agora deitar mãos ao brinquedo para a neta - uma casinha em madeira para as bonecas - mas esse tinha tempo, ia ser um presente de aniversário e ainda faltava mais de um mês.
Com o caminhar do inverno, que juntou ao frio e ao vento uma chuva fina e afiada, começou a aborrecer-se de toda aquela trabalheira de se vestir por tão pouco, ir ao café num instante e, ainda por cima, regressar tão friorento e com os pés tão molhados. Passou, então, a fazer café em casa, numa máquina que possuía há anos e que raramente utilizava.
A noite, quando chegava a casa, a mulher afligia-se de o ver ainda de pijama e com a barba por fazer.
«Vê lá se te vestes e vais arejar», dizia-lhe ela, preocupada.
Cardoso franzia, ao de leve, as sobrancelhas, chegava-se até à janela, alongava os olhos rua fora, através dos vidros, e remoía: «Que raio de inverno que este ano temos!...»
*
A casinha de bonecas para a neta meteu projecto de papel, lápis e régua. Durante várias tardes, desenhou e apagou. Insatisfeito, voltou a desenhar, corrigiu, retocou. Finalmente, olhou com prazer o esboço do brinquedo. Não estava nada mal, não senhor!... Meteu as mãos nos bolsos e assobiou o ritmo alegre de uma música conhecida. Era um hábito muito dele: quando acabava qualquer coisa que lhe tinha exigido esforço ou quando chegava a qualquer conclusão ou decisão, metia as mãos nos bolsos e assobiava. Lá na empresa era a mesma coisa. As vezes calhava ter à frente uns textos e uns títulos para montar numa página de jornal que não cabiam ou não jogavam bem. Ficava a olhar para aquilo, a ver mentalmente as várias hipóteses que tinha, as várias decisões que podia tomar. Reduzir? Passar a outro corpo? Alinhar tudo à esquerda? Ficava-se a pensar e depois, num relâmpago, via ali, inteirinha, a solução de todo o problema. Assobiava, aliviado e feliz, e jogava-se ao trabalho.
Orgulhava-se de sempre ter sido habilidoso. Quando aparecia algum trabalho mais difícil ou complicado lá na empresa, já sabia, era a ele que o entregavam. O subchefe de Redacção, Joaquim Teodoro, conhecido entre o pessoal pelo “bulldozer”', numa provável dupla homenagem ao físico entroncado e à “delicadeza” arrasadora do feitio, era ainda mais parco de elogios que de sorrisos. Era irascível, aquele Teodoro!... E exigente, exigente até ao pormenor!... Por isso, um elogio vindo da boca dele tinha mais peso que uma dúzia numa boca qualquer. Parecia que ainda o estava a ver... No fecho do jornal, lá estava ele na montagem, ao lado dos gráficos, possante e carrancudo, respirando ruidosamente sobre as páginas quase prontas do jornal, amassando entre os lábios um cigarro esquecido e meio apagado. De vez em quando, explodia num grito troante como um canhão: «Isto aqui não presta!». E quando algum gráfico, menos habilidoso ou mais desajeitado, tardava no arranjo pretendido ou na emenda necessária, logo os olhos de Teodoro, agitados, varriam toda a montagem à procura de Cardoso. E quando ele chegava perto, o “bulldozer” acalmava um pouco e pedia, numa impaciência suplicante: «Oh Cardoso, salve-me isto aqui.»
Tinha sido o subchefe de Redacção o primeiro a abraçá-lo na festa em que comemoraram os cinquenta anos do jornal. Tinha sido uma festa linda!... No fim do almoço, o Director falou que ia lembrar alguns nomes, entre presentes e ausentes, cujo trabalho e dedicação muito tinham contribuído para que aquela casa e aquele jornal fossem o que eram. E com que surpresa Cardoso ouviu o nome dele ser chamado! Nem queria acreditar!... E, depois de ter recebido das mãos do Director uma lembrança comemorativa - uma gravura com o nome do jornal dentro de uma caixa almofadada - quando já voltava para junto dos colegas gráficos, sentiu uns braços fortes que o apertavam e uma voz que lhe segredou, numa rudeza mesclada de emoção: «Você merece, oh Cardoso». Era Joaquim Teodoro, o ”Bulldozer”. Ele ainda retorquiu: «Gosto de caprichar no trabalho». E, se não fosse porque um homem não chora, e muito menos um homem da idade dele, ah, naquele momento tinha deixado que lhe assomasse aos olhos uma lagrimazinha...
(continua)
anamar - 1989
Na manhã do dia seguinte resistiu para não ir à empresa. Não ia voltar a mostrar o Bilhete de Identidade aqueles dois novos da portaria e vigilância e dizer quem queria visitar. Um homem tem a sua vaidade, martelava em pensamento. Ou seria que ele estava a ficar teimoso, agora que caminhava para velho?... E estaria mesmo a caminhar para velho ou já seria velho? Ao fim e ao cabo não era o que “eles” - o engenheiro e os outros mandões lá da empresa - tinham achado ao levá-lo a reformar-se? Velho? Não, rebelava-se contra a ideia. Sentia-se cheio de força e de vitalidade e, se não estava naquele momento a trabalhar em forte e a dar o melhor de si, era por um conjunto de circunstâncias que não tinham nada a ver com ele ser velho ou não. Mas, agora que a reforma estava consumada, o que ele mais tinha a fazer era cuidar da vida dele e gozar o tempo livre de que dispunha enquanto se sentia com vigor. Com esta disposição saiu de casa. Havia de gozar a vida!
Durante toda a manhã percorreu as ruas sem fim, entrou em lojas, supermercados e centros comerciais, mirou coisas, remirou novidades comerciais, ouviu preços. Depois, almoçou num restaurante que oferecia na ementa, pendurada à porta, bacalhau à lagareiro com batatas a murro, que era um dos seus pratos favoritos. O bacalhau estava bom, regado com um azeite fino, acompanhado por uma salada verde e fresca, e o empregado do restaurante era amável e solícito. Mas a falta de companhia não lhe deixava sentir todo o sabor do bacalhau. Lançava, a míudo, olhares fugidios aos outros clientes do restaurante, meia dúzia de mesas apinhadas de pessoas que conversavam ruidosamente, enquanto comiam, atirando gargalhadas que estralejavam no ar como foguetes.
Depois do almoço sentiu-se pesado e apeteceu-lhe ficar um pouco a pensar na vida e nas coisas que iria fazer. Junto ao restaurante ficava um jardinzinho pequeno, salpicado de canteiros de flores coloridas e de relva muito verde e aparada, ainda húmida da última rega. O jardim não tinha mais que três ou quatro bancos compridos, todos ocupados. Cardoso sentou-se num, ao lado de um velhote trémulo que apoiava as duas mãos numa bengala e olhava em frente, fixamente, com olhos desmaiados e aquosos. No banco ao lado, duas mulheres gordas, vestidas de preto, tagarelavam com animação, a mexer agulhas e linhas que manobravam com dedos diligentes e nervosos, num movimento incessante, criando arabescos de renda. As duas mulheres tinham puxado as meias pretas para baixo, até aos tornozelos, destapando as pernas inchadas e muito brancas, raiadas de varizes azuladas, que estendiam ao sol e esfregavam, de vez em quando, com gestos demorados.
O velhote, ao lado de Cardoso, virou lentamente a cabeça para o companheiro de banco de jardim. Nos olhos desmaiados acendeu-se, por instantes, uma luz fugaz, e ele murmurou, mastigando devagar as palavras:
«Está também a aproveitar este solzinho?!...»
Cardoso olhou-o de revés, incomodado, mas, por educação, fez um esforço e sorriu com uma migalha de simpatia. Está também a aproveitar este solzinho?!... A pergunta do velho picava-lhe no peito como o ferrão de um insecto traiçoeiro. Que ideia aquela!... Como se ele, um homem activo, em plena meia idade, não tivesse mais nada para fazer que aproveitar o calor do sol, num banco de jardim, como um moribundo qualquer já com os pés para a cova... Levantou-se e atravessou o jardim, passando junto às mulheres de preto que faziam renda e a um par de namorados que tinha mergulhado num beijo infinito e profundo.
No outro lado do jardim, a confinar com uma rua calma e solitária, três ou quatro miúdos, aí de uns doze ou treze anos, divertiam-se com uma bola que atiravam uns aos outros com algazarra e alarido. As risadas dos gaiatos, as maçãs do rosto afogueadas pela brincadeira, as pernas ágeis e sem cansaços, funcionaram como um bálsamo para aquele descontentamento incomodativo que o velhote, sem querer, fizera nascer em Cardoso. Sentou-se ali mesmo, num tronco de árvore caído à beira de um canteiro de ervilhas de cheiro que exalava um aroma forte e penetrante. Ficou a seguir, com os olhos, as curvas em arco que a bola descrevia no ar, pontapeada pelos ténis gastos dos rapazes. A determinada altura, a bola sumiu-se, sem dúvida atirada longe demais por um pontapé demasiadamente forte. Um dos miúdos correu à procura da bola e regressou, instantes depois, a bola agitada entre as duas mãos, um grito de alerta na voz:
«Eh, pá, vamos embora que vem aí o polícia e ele quer ficar-nos com a bola.»
Lestos, os outros miúdos trataram de correr e sumiram-se pelo outro lado do jardim. O que tinha a bola ainda ficou uns segundos a olhar para um e outro lado. Mas, ao avistar a figura fardada do polícia que se aproximava, saltou, de um pulo, até perto de Cardoso e atirou-lhe, juntamente com a bola:
«Ó tiozinho, guarde-nos aí a bola, senão o polícia apanha-a.»
Os olhos do rapaz tinham a cor quente do mel e da juventude e Cardoso escondeu-lhe a bola com satisfação, apertando-a entre as pernas e o tronco de árvore onde se sentava, e sentindo um secreto prazer pela cumplicidade com os miúdos.
O polícia passou, em passos vagarosos, as mãos atrás das costas, muito hirto e sorumbático, olhando por baixo, e perdeu-se para lá do jardim, numa curva da rua. Cardoso pegou na bola, soprou a terra que se lhe tinha colado e que a sujava e ficou a rodá-la entre as mãos, esperando os miúdos.
Parecia, no entanto, que esses se tinham evaporado. Cardoso viu o par de namorados levantar-se, sem nunca afrouxarem o abraço apertado que os unia, e seguirem rua abaixo, alheios ao mundo que os rodeava e a outro pulsar que não fosse o deles. Viu as duas mulheres de preto embrulharem as rendas, delicadamente, em panos brancos, puxarem as meias para cima e levantar-se do banco onde se sentavam. Viu chegar uma mãe jovem que carregava nos braços um saco pesado e uma menina pequena mas que parecia igualmente pesada; a jovem mãe aproveitou um dos bancos do jardim para descansar um instante, ajeitou a roupa enrodilhada da menina e logo seguiu caminho.
Cardoso decidiu não esperar mais pelos miúdos, agachou a bola junto ao tronco, pôs-lhe por cima um ramo caído de um arbusto, e deixou o jardim onde o velhote trémulo continuava, com olhos fixos e perdidos, a olhar em frente.
Pelo caminho até casa foi meditando nas várias tarefas a que queria deitar mãos nos dias mais próximos. Uma - ia ser cá uma surpresa e uma alegria para a mulher!... - era uma bancada em madeira para colocar na varanda, onde ela pudesse pôr os vasos com as flores de que tanto gostava. Coisas de mulheres! Enfim, tanto e há tanto tempo que ela lhe vinha pedindo para ele lhe fazer aquilo e nunca tinha tido tempo nem disposição. Ia ser agora. A outra coisa - essa era uma surpresa para a neta pequenita -, com os bocados de madeira que sobrassem, ia fazer-lhe uma casinha de bonecas, com “portas, janelas, telhado e tudo”, como ela lhe tinha um dia pedido.
Mais desanuviado e leve, meteu as mãos nos bolsos, assobiou baixinho e pôs-se a caminho de casa.
(continua)
anamar - 1989
No dia seguinte acordou à hora do costume, mesmo sem o toque do despertador, desligado na noite anterior por já não ser necessário. Afastou maquinalmente os lençóis e saiu da cama, levado pelo antigo hábito de muitos anos. Já estava de pé quando se deu conta que, afinal, não precisava levantar-se tão cedo. Foi à casa de banho e depois ficou parado no meio do corredor, meio esquecido, meio atordoado, sentindo com a palma da mão a aspereza da barba que despontava no queixo. A mulher já tinha saído para o trabalho e a casa estava envolta em penumbra e cheia de um vazio silencioso. Os estores das janelas, quase completamente corridos para baixo, deixavam apenas entrar duas réstias delgadas de luz que desenhavam indefinidas sombras nas paredes. Ainda esteve tentado em voltar para a cama mas acabou por se decidir pelo barbear, tomar um banho e vestir roupa lavada.
Saiu de casa sem pressas, bebeu uma bica no café e foi andando devagarinho, rua abaixo, a olhar os prédios altos, de janelas mudas, junto aos quais passava todos os dias mas para onde raramente levantava os olhos, na pressa quotidiana dos horários apertados. Junto à paragem do autocarro deteve-se um pouco. Quando o laranja chegou, ficou a ver, uma a uma, as pessoas que subiam, mostrando os passes ao motorista ou picando o bilhete com um estalinho sonoro. Entrou a última e Cardoso ainda teve uma hesitação vaga mas, logo a seguir, determinado, entrou também.
Pouco depois deu por ele no Metro, irmanado com aquele grupo compacto de gente que galgava, em passos largos, os longos e sombrios corredores subterrâneos. Os tacões dos sapatos das pessoas batiam no chão, certeiros e ritmados, ecoando nas paredes nuas: toc, toc, toc, toc. De repente irrompeu uma música cheia, redonda e quente, que vibrou nos corredores compridos e abafou o barulho dos tacões. Era o cego do acordeão que tocava a troco de uma esmola.
Cardoso saiu do Metro e subiu as ruas familiares do Bairro Alto. À porta da empresa cumprimentou o Meireles, o recepcionista, e entrou. A rapaziada recebeu-o com vivas entusiasmados. Todos o chamavam. Então, oh Cardoso?!... Uns queriam saber novidades, como se a última vez que se tinham visto tivesse sido há muito tempo e não no dia anterior; outros queriam um palpite para o bilhete da Lotaria. Dois zeros de terminação, nah, não tenho fé nisso... Fica-se com o outro bilhete, um três e um cinco, esse está bem, é um bom número. Ficou decidido, todos puxaram da carteira para a compra da cautela, e o Zé Fernandes, que andava a recolher o dinheiro, estendeu também a mão para Cardoso. «Continuas cá no grupo das apostas, tá?», sentenciou com uma palmada firme no ombro do reformado. Cardoso riu-se com agrado, meteu a mão ao bolso e entregou-lhe o dinheiro.
Nos dias que se seguiram continuou a ir à empresa. Chegava, quase sempre, ao fim da manhã, ia almoçar com a rapaziada e depois deixava-se ficar tarde fora, nas conversas do costume, velhas de muitos anos mas sempre rejuvenescidas por novos pormenores, enquanto as páginas dos jornais, nas mesas de montagem, iam tomando forma. O futebol era a paixão colectiva. E, naquele dia em que anunciaram a transmissão directa, de Itália, da Final da Taça dos Campeões, Cardoso levou de casa a televisão pequenina, a cores, que tinha comprado durante as últimas férias, numa excursão a Ceuta.
Um dia, foi a uma segunda-feira, Cardoso nunca mais o esqueceria, mal empurrou a grande porta envidraçada da empresa, pressentiu difusamente que algo se tinha passado. Alguma coisa drástica e desagradável.
Avançou devagar pela entrada atapetada, procurando com os olhos a figura conhecida de Meireles, o recepcionista. Em lugar dele viu um homem e uma mulher, ambos jovens e fardados de igual, ele com calças azul-escuro e camisa bege, ela de saia azul e blusa igualmente bege. Os olhos caíram-lhe sobre o emblema de letras douradas que ambos ostentavam no peito. E, num relance, ao tomar consciência do significado do reluzente nome escrito no emblema, Cardoso sentiu o coração saltar como se um punho fechado o tivesse socado por baixo: o velho recepcionista Meireles tinha sido substituído por dois jovens funcionários de uma moderna empresa de segurança e vigilância.
Mas já os dois funcionários de azul e bege o olhavam com ar formal e atento, esboçando ténues sorrisos. Queriam saber o que desejava e quem procurava. Cardoso abanou devagar a cabeça. E murmurou baixinho, a garganta e o peito apertados por uma estranha confusão envergonhada.
«Trabalhei aqui nesta empresa mais de quarenta anos. Reformei-me vai para um mês...»
Nada disto devia ter significado ou entendimento para os dois novos funcionários da vigilância e segurança que voltaram, polidamente, a repetir a pergunta: «O que desejava? Quem procurava?»
Cardoso sentiu-se estremecer. Quem e que procurava ele? Talvez ninguém e nada em particular. Procurava a rapaziada toda, alguns deles companheiros diários de muitos anos de trabalho. Procurava o convívio perdido. A ocupação de espírito e corpo que preenchesse aquele vazio abissal e sem horizontes para onde a reforma súbita o atirara.
«Queria falar com o Zé Fernandes, da secção de montagem.» Dissera um nome ao calhas. Mas já o funcionário de azul e bege, muito compenetrado e eficiente, consultava a lista dos trabalhadores da empresa na procura do nome do Zé Fernandes.
«Precisamos de um seu documento para identificação», pediu, sem levantar os olhos.
Cardoso puxou da carteira e estendeu-lhe maquinalmente o Bilhete de Identidade. Logo a seguir entregaram-lhe dois papéis. Um, era um impresso onde constava o nome dele, a hora de entrada - preenchida até ao pormenor, 11 horas e 2 minutos, nada de arredondamentos - e um espaço em branco para a hora de saída.
«Por favor, peça para o sr. José Fernandes assinar e volte a entregá-lo à saída, quando levantar o Bilhete de Identidade.»
Quanto ao outro papel - um rectângulo plastificado preso por uma pequena mola - Cardoso revirou-o entre os dedos e leu, em letras gordas e negras: Visitante.
«É para o senhor pôr ao peito», esclareceu o funcionário da empresa de segurança e vigilância.
Quando chegou à montagem, assaltaram-no com comentários e perguntas:
«Então, viste a flausina mais o carapau de corrida que eles agora puseram à entrada?. Vê lá que ficamos todos parvos com esta novidade! Uma coisa assim, de repente, sem ninguém estar à espera... Isto deve ser mais uma do Engenheirote...»
Cardoso, cheio de maus pressentimentos, queria era saber do Meireles, o recepcionista: O que lhe tinha acontecido? Onde estava?
Os gráficos franziam a testa, os olhos redondos de perplexidade. Ninguém sabia muito bem. Constava que o Meireles tinha ido de férias. Havia quem se lembrasse de o ter ouvido dizer que, por estes dias, queria ir à terra, à matança do porco.
«Se ele foi de férias e não sabe de nada, quando cá chegar e encontrar os dois jeitosos lá na recepção, com a surpresa ainda lhe dá um chilique que nunca mais se endireita», conjecturava-se.
Cardoso tirou da algibeira e mostrou a Zé Fernandes o impresso que o funcionário da vigilância e segurança lhe tinha dado para ser assinado, mais o rectângulozinho plastificado, com uma mola na ponta, que dizia, em letras negras, a palavra “Visitante".
«Então, não penduraste isso aí no casaco?», interrogou-o Zé Fernandes.
Cardoso fitou de frente o antigo colega de profissão.
«Trabalhei cá mais de quarenta anos. Deixei cá metade das horas da minha vida. Ninguém me vai agora obrigar a entrar cá com um cartão pendurado a dizer visitante.»
Os olhos de Cardoso tinham escurecido e a voz soava triste e ressentida.
«Não leves as coisas assim tão a peito. Não se ganha nada com isso...», animou-o Zé Fernandes, pondo-lhe, amigavelmente, uma mão no ombro.
«Um homem tem a sua vaidade!», retorquiu Cardoso, voltando a guardar o rectângulo plastificado na algibeira.
(continua)
anamar - 1989
A MORTE ABREVIADA DE MANUEL CARDOSO
A funcionária da Contabilidade preencheu o recibo e o cheque e depois entregou-lhos, indicando o local onde ele devia assinar.
«Isto é que é sorte, hem, sr. Cardoso! Leva aqui, de uma só vez, uma indemnização que é quase um ano de trabalho em dinheiro e reforma-se um jovem... Depois é que vai ser, o dinheirinho da reforma todos os meses e só boa vida!...»
Ela levantou os olhos dos papéis que pejavam a secretária e sorriu, fixando-o entre descarada e brincalhona.
«É cá uma inveja que me faz... Um jovem e já reformado, hem?!... É ou não é, sr. Cardoso?»
Ele riu-se também e não resistiu a gracejar:
«Jovem, propriamente, não direi... mas aqui ao pé de uma carinha fresca como a sua até me esqueço dos anos que tenho.»
E como ela, mordiscando distraidamente a ponta da esferográfica, divertida e risonha, continuava a olhar para ele, baixou ligeiramente a voz e abriu-lhe mão de uma confidência:
«Ainda hei-de fazer os sessenta. Mas olhe, deixo cá mais de quarenta anos de trabalho. Mais?!... Oh, muito mais... Entrei para cá ainda nem os quinze completos tinha, agora tenho cinquenta e nove, veja lá quantos anos não deixo nesta casa?»
A rapariga encostou-se toda para a frente, descontraída, os braços dobrados em cima da secretária, as bochechas rosadas da cara fresca apoiadas nas conchas das mãos, e Cardoso perdeu-se em recordações:
«Entrei para cá directamente para o jornal, não foi logo para a tipografia, embora, nessa altura, fosse tudo uma só empresa. Eu fazia serviço externo, compras, correio, encomendas, coisas assim. Levava para a rua e trazia. Era então director o Doutor Ruas Rosa... O que ele gostava de umas merendinhas que se faziam numa padaria que havia ali ao fundo da rua, onde agora há um snack-bar que serve almoços ao balcão! De manhã, a primeira coisa que eu fazia era ir-lhe buscar uma merendinha quente, acabadinha de sair do forno... Mas estive pouco tempo no serviço externo, não demorei muito a passar para a tipografia. Sempre que podia dava uma escapadela lá abaixo, às máquinas, e ficava, cá de cima, a espreitar os homens no trabalho. Naquele tempo ainda nem se sonhava com computadores nem off-sets, era tudo em chumbo, trabalho pesado, feito numas máquinas grandes e escuras, as linotypes, era assim que se chamavam, que compunham os textos em graneis que depois montávamos nas ramas para fazer as páginas dos jornais. Os homens usavam uns fatos azuis-escuros, eu ainda me parece que sinto o cheiro a chumbo que ficava no ar!... Mas o que verdadeiramente me deixava fascinado era a rotativa, enorme como um monstro pré-histórico, um emaranhado de correias compridas como cobras que se perdiam nas voltas que davam. Quando a punham a trabalhar, primeiro resfolegava como um comboio a vapor a subir uma encosta, depois, quando engrenava, era um cavalo possante e alado vomitando jornais que ainda escorriam tinta fresca... Foi o Doutor Ruas Rosa que me disse, Gostas?... Então passa para lá e faz-te um artista. Sim, ele tinha razão, montar um jornal é um trabalho de artista, a gente tem ali uma maqueta à frente, que não passa de uns riscos, uns traços, umas indicações, uma ideia. Mas depois vêm os textos, os títulos, as fotos, as redes, não basta colocá-los no sítio certo, é preciso calcular os tamanhos, sentir os equilíbrios, perceber os contrastes, jogar com as distâncias. Montar as páginas de um jornal é dar corpo a uma ideia, vê-lo surgir ali, materializado e palpável. Um trabalho de artista!... E olhe, não é para me gabar, mas eu era dos melhores.»
O dia de trabalho chegava ao fim e a funcionária da Contabilidade já arrumava discretamente os papéis e fechava os dossiers. Cardoso guardou o cheque e o recibo na algibeira de dentro do casaco e transpôs a porta da empresa ainda com a recordação do velho cheiro a chumbo nas narinas, de mistura com o discreto aroma das modernas e lustrosas folhas onde o texto composto passara a ser impresso. Lá fora, a tarde era de Verão, cheia ainda de uma luz que parecia rir, e de gente que corria, indiferente e apressada, desejando chegar a casa depois de mais um dia de trabalho. Cardoso caminhava também apressado, no meio da multidão, alheio ao afago quente da luz, tropeçando em lembranças que se lhe atravessavam no pensamento.
Empurrou devagarinho a porta do gabinete do Engenheiro Gomes. Primeiro tinham partido a empresa, jornal para um lado, tipografia para outro. O jornal dava prejuízo, diziam. Depois a Redacção do jornal mudou de instalações. Foi nessa altura que chegou o Engenheiro Gomes, antecedido por uma aureolante fama de inteligência e sabedoria. Pasmou-se o pessoal de tanta juventude. Pasmou-se ainda mais quando se deu conta de tanto dinamismo e eficácia num corpo tão delgado e imberbe de adolescente. Os gráficos e fotógrafos comentavam, maldosos e gozões, que a cara do engenheiro tinha menos pêlos que a da D. Carolina, a telefonista gorda mas de voz tão suave, tão terna e acariciante, que fazia esquecer, a quem a ouvia, os pesados e grossos quilos que se derramavam nas roupas irremediavelmente apertadas, lá atrás do PBX.
Pois, quanto ao Engenheiro, o pessoal não sabia ao certo se ele era director, se chefe, se gestor, mas, desde que chegara, passou a mandar em tudo, tudo supervisionando e tudo corrigindo e reestruturando, omnipresente e omnisciente, cheio de leveza e gestos elásticos. Era vê-lo da sala de composição para a montagem, da montagem para a fotografia, da fotografia para a impressão, desdobrando-se em incansáveis e entusiasmadas explicações, sublinhadas a sorrisos e matizadas de palavras difíceis que os gráficos decifravam mal, baralhando-lhes os pensamentos.
A única coisa que toda a gente percebeu é que a empresa estava a dar uma grande volta. Era o progresso. Eram as novas tecnologias. Era a competição de mercado. Era tornar aquela uma empresa agressiva e dinâmica, capaz de fazer face aos desafios do futuro e às novas conjunturas. A partir daí, apanhados nessa onda enorme e avassaladora, foi um ver se te avias de gente que se mudou para outro local de trabalho, que se despediu e foi despedida, que se reformou e foi convidada a reformar-se. Muitos partiam satisfeitos e com poucas saudades, embalados em sonhos e projectos futuros de negócios por conta própria a que algumas indemnizações, recebidas à despedida, teciam de facilidades e deslumbramentos.
Cardoso abriu a porta do gabinete do Engenheiro Gomes e logo ele se levantou, cumprimentando-o efusivamente.
«Sente-se, sr. Cardoso, sente-se.»
O cabelo do Engenheiro, que era liso e castanho, tinha um corte caprichado e mantinha-se impecavelmente penteado. As calças, a camisa, a gravata, eram claras, leves, modernas e harmoniosas. Mas as mãos do Engenheiro, que eram brancas e finas e tinham uns dedos tão exageradamente compridos que ele os mexia desajeitado, lembravam as mãos de um menino que tivesse crescido depressa demais.
Depois o Engenheiro falou, transbordando sempre de sorrisos, mexendo continuamente as mãos de dedos compridos. Que ele, Cardoso, pensasse bem, ninguém o obrigava a nada. Ninguém queria obrigá-lo a reformar-se mas, com a idade que tinha e tantos anos de serviço... Depois foi novamente aquela história das tecnologias, dos progressos, da reestruturação da empresa, das competições de mercado. As palavras do Engenheiro flutuavam na cabeça de Cardoso como num mundo sem gravidade. O Engenheiro inclinou-se ligeiramente e apresentou-lhe o papel para a antecipação da reforma. E Cardoso, sem sentir bem os pés no chão, levitado, assinou por baixo em letra miúda e desenhada.
Quando soube, a mulher fez-lhe uma festa. Que maravilha! Com aquele dinheirinho que iam receber podiam mandar arranjar os canos da cozinha, pôr umas torneiras novas e comprar uns armários modernos. E ele ia descansar, que bem precisava. Quem lhe dera a ela, sempre naquela labuta a ver se não chegava atrasada ao emprego para não ter falta nem descontos. E todos os dias aquela canseira dos transportes e das bichas, quem lhe dera a ela poder já reformar-se e ficar em casa a tratar das suas coisinhas. Talvez a mulher tivesse razão. Pois se toda a gente lhe dava os parabéns pela sorte que tinha...
Cardoso apercebeu-se que, rapidamente, tinha descido as ruelas estreitas do Bairro Alto, apertadas entre prédios de janelas antigas, com cordas de roupa pendurada, a secar, que as mulheres apanham àquela hora da tarde. Ruelas íngremes e tortuosas, salpicadas de velhas tascas de lume a carvão à porta e de casas com jantares típicos e Fado na ementa, onde, em horas perdidas, gente de variados quadrantes e ofícios bebe café e álcool. Atravessou o Rossio, fervilhando de pessoas que se cruzam e acotovelam na pressa de apanhar transporte, alheias aos pedintes de olhar parado que ostentam mazelas e cartazes toscos onde se descrevem tragédias, à laia de legenda, em meia dúzia de palavras com erros: "Tou desinpregado e sofro de trabeculose". "Na tenho dineiro pra comprar o leite para os mes filhos". O pregão do vendedor de bugigangas alterna com o da mulher dos raminhos de flores e as pessoas quedam-se por instantes, numa curiosidade breve. Junto aos semáforos, em magote, esperam com impaciência que chegue o verde para os peões e depois avançam de assalto, como uma vaga, para o outro lado da rua. Cardoso respirou fundo, com um longo suspiro, e desceu os degraus do Metro, a caminho de casa.
(continua)
anamar - 1989